terça-feira, 8 de dezembro de 2009

LITERATURA AFRICANA DE LINGUA PORTUGUESA


Introdução


A primeira literatura africana foi produzida pelos portugueses no século XV, chamada de literatura do descobrimento, que se baseavam em relatos de viagem feitos por navegadores, escrivães e comerciantes. Logo após surgiu a literatura colonial, que retratava a vivencia dos portugueses nas terras africanas. Nestas literaturas, o centro do universo narrativo e poético era o homem europeu e não o africano. Era uma literatura profundamente racista, onde predominavam as ideias de inferioridade do homem negro. Implica falar ainda que, nestas literaturas, a África era vista apenas como uma linda paisagem, ou um paraíso, e o protagonista dessa paisagem era o homem europeu. Trata-se, pois, de uma literatura caracterizada fundamentalmente pela exploração do homem pelo homem.
Já a literatura africana de língua portuguesa irei analisar neste trabalho e um conjunto de obras literárias que traduzem uma certa africanidade, toma esta designação porque a África é o motivo da sua mensagem ao mundo, porque os processos técnicos da sua escrita se erguem contra o modismo europeu e europeizante. Essa literatura também é chamada de literatura Neo-africana por ser escrita em línguas européias, para diferenciá-la da literatura oral produzida em língua africana. Nesta literatura, o centro do universo deixa de ser o homem europeu e passa a ser o homem africano.
O que proporcionou o aparecimento dessa nova literatura com raízes africanas foi desenvolvimento do ensino oficial e formalizado na África, a liberdade de expressão, derivada da independência de alguns países que eram mantidos pelos europeus e a instalação da imprensa.
Esta literatura teve a sua origem através do confronto, da rebelião literária, linguística e ideológica, da tomada de consciência revolucionária a partir da década de 40 (século XIX), são textos impregnados de marcas visíveis da revolta política e social. Importa referir que era uma literatura dirigida particularmente aos africanos e escrita em línguas locais em mistura com o "português", pois o propósito era tornar a escrita inacessível aos europeus, isto é, não permitir ao homem branco descodificar as suas mensagens. Daí a introdução nas obras de poetas angolanos (Agostinho Neto, António Jacinto, Pinto de Andrade, Luandino Vieira, etc.) de palavras e frase idiomáticas em quimbundo e umbundo. A literatura africana de língua portuguesa não é semelhante à brasileira, pois, tem somente 40 anos de existência, por isso, não se sabe definir ao certo, qual estilo literário cada autor adota para construir suas obras.

Agostinho Neto em “A Náusea”


Antonio Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola (1975-1979), após a independência desta de Portugal. Nasceu em Bengo em 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, a cerca de 60 km de Luanda meio a uma família metodista - seu pai era pastor e professor de Bíblia da Igreja Metodista. Envolveu-se com grupos anticolonialistas quando estudava medicina em Portugal. Poeta nacionalista, seus escritos foram proibidos e esteve preso de 1955 a 1957 e outra vez, já em Angola, de 1960 a 1962. Conseguiu fugir para o Marrocos e posteriormente fundou o MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, de tendência marxista. Conquistando a independência de Angola em 1975, contando com o apoio de Cuba, entrou em choque com grupos de direita, apoiados pelos EUA e pelo governo racista sul-africano.
O conto “A Náusea”, desse autor angolano, publicado em 1961, foi escolhido para analise por representar bem o universo mítico africano e por ter sido o modelo do momento de solidificação da literatura angolana, quer pelo fato de seu autor ter sido o mais importante precursor da independência de Angola especificar em seus escritos a ação principal da literatura como uma das táticas de confronto com o colonialismo, quer por se tratar de um conto bem preparado em que há uma busca de expressão de valores nacionais e a construção de uma personagem-protagonista cujos traços essenciais seriam retomados depois em diversos textos de outros autores africanos.
São dois os personagens do conto: o velho João e seu sobrinho que não apresenta nome, sendo o protagonista o velho João, trabalhador humilde e morador do musseque, a favela luandense, o qual vai visitar sua família na ilha de Luanda. O velho João relembra o passado, as lembranças tristes que o mar evoca. Impregnado do cheiro do mar e das lembranças, sente náusea e vomita. O sobrinho, jovem, por não ter vivido as experiências do tio em relação ao mar, reage diferente ao presenciar a cena, porque só consegue fazer a seguinte leitura: "... que mania que têm os velhos de beber demais."
Nota-se que a descrição do reencontro do protagonista com o espaço de sua infância, que ocupa a parte inicial da narração, o espaço marinho pouco aparece, mas e substancializado através das metonímias: “uma ou outra onda mais comprida”, “areia quente da praia”, e “sombra dos coqueiros”, como se o expressão MAR precisasse ser evitado. Ela só aparecera na narrativa quando seu João disser: “O mar. A morte. Esta água salgada é perdição.”, para acrescentar: “O mar. Mu’alunga!”. Depois disso, o velho João enumera as mortes de pescadores da família e de amigos que se afogaram como espécie de prova dos malefícios trazidos pelo mar. Porém, a queixa apresentada no conto deixa de pertencer somente ao velho João e passa a fazer parte do discurso de todos os angolanos que tiveram os mesmos entes queridos naquela situação, quando o narrador organiza e abrevia o conteúdo dos pensamentos do velho João, propiciando que as lamentações do protagonista sejam estendidas com as lentes do discurso dos marginalizados dos portos quando chegaram às caravelas portuguesas:

Kalunga. Depois vieram os navios, saíram os navios. E o mar, é sempre Kalunga. A morte. O mar tinha levado o avô para outros continentes. O trabalho escravo é Kalunga. O inimigo é o mar.

O mar no conto é identificado com os navios e às desgraças da colonização, entre as quais o tráfico negreiro e, portanto, é caracterizado como Inimigo: “não conhece os homens. Não sabe que o povo sofre. Só sabe fazer sofrer.”
A correspondência do mar à desgraça é operacionalizada, na esfera das expectativas do protagonista do conto “A Náusea”, como destino contra a qual não ela pode lutar apenas enojar-se; mas, levando em conta que a náusea é também a demonstração da revolta do africano colonizado, é possível realizar uma leitura em que a consciência possível do velho João é ultrapassada, vislumbrando as possibilidades de uma mudança da situação.

O cenário do MAR na literatura africana de língua portuguesa


O mar já tem sido lugar de destaque em toda a literatura de língua portuguesa. Talvez, por se ser a via por onde navegaram as caravelas chegando aos mais distantes portos. O mar se tornou símbolo da expansão dos portugueses. Olhando por essa perspectiva, pode-se dizer que os mares foram o ponto privilegiado de onde a nação mirou-se ao voltar seu olhar ao Outro, engendrando, a partir da espessa camada de representações elaboradas sobre os povos dos portos, uma imagem de si própria. Dessa maneira, os olhares das naus enxergaram os portos aonde elas chegavam, mas porem não ouvia os gemidos que eram ali expostos.
Fazia-se então necessária outra viagem: aquela que propiciasse uma real descoberta de si próprios, tentando desvendar as imagens superpostas e tornar audíveis suas falas. Em outras palavras, tentar resgatar a memória e os sonhos. Nesse processo, foi fundamental o papel da literatura, pois o discurso articulado na série literária, ao abrir-se em possibilidades de projetar o futuro, foi o aliado escolhido na árdua luta que se travou para a independência.
Em Angola, mais precisamente na cidade de Luanda, porto a que as naus dos colonizadores portugueses chegaram no século XV e de onde partiriam apenas em 1975, o caminho percorrido rumo à independência foi longo e demorou um largo tempo para que suas próprias imagens e vozes se impusessem. Então depois da independência os até então donos do mar e da voz foram calados e em seu lugar, triunfante, a voz dos reais donos da terra, há tanto silenciada, ergueu-se, proferindo discursos de autonomia e construção de uma nova nação.

Considerações Finais


Toda literatura tem como inspiração uma referencia. Na literatura brasileira, tivemos como referencia o índio, o negro, a mulher adultera e etc. Já na literatura africana de língua portuguesa, devido ao pouco tempo de existência, e aos conflitos históricos sociais em que atravessaram a população africana, a referencia literária, passou o MAR, aquilo que mais lhe causa lembranças, tanto triste como felizes, pois durante séculos, o MAR foi utilizado como tortura e formas de dominação. Agustinho Neto soube aproveitar muito bem essa temática em seu conto “A Náusea”, pois explorou o tema de forma que soube passar o sentimento de tristeza e angustia, mesmo para aqueles que não vivenciaram a experiência da escravidão.


Fonte: www.geocities.com

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Referência,Linearização, cognição e referência: o desafio do hipertexto.


By teoriaediscurso
Noção de hipertexto:

» O termo hipertexto foi cunhado por Theodor Holm Nelson em 1964, para referir uma escritura eletrônica não-sequêncial e não-linear.
» Trata-se de uma forma de estruturação textual que faz do leitor simultaneamente co-autor do texto final.
» O hipertexto se caracteriza, pois, como um processo de escritura/leitura eletrônica multilinearizado, multisequecial e indeterminado, realizado em um novo espaço. O hipertexto consegue integrar notas, citações, bibliografias, referências, imagens, fotos e outros elementos encontrados na obra impressa.
» O hipertexto não é previsível.
» O hipertexto não tem uma única ordem de ser lido. A leitura pode dar-se em muitas ordens.
» Tem múltiplas formas de prosseguir.
» O hipertexto exige um maior grau de conhecimentos prévios e maior consciência quanto ao buscado, já que é um permanente convite a escolhas muitas vezes inconsequentes. “Stress cognitivo” Natureza do hipertexto:
» Não-linearidade
» Volatilidade
» Topografia
» Fragmentariedade
» Acessibilidade ilimitada
» Multisemiose
» Interatividade
» Iteratividade
» No hipertexto há vários assuntos conectados, permitindo que o leitor deixe de ser apenas leitor e passe a ser co-autor, produzindo assim, seu próprio hipertexto, com conteúdo e ordem de ser lido, próprios desse co-autor, o qual, hipertexto, dificilmente terá outro igual, como diz Marcuschi (2008:155), “Pode-se até mesmo dizer que não há, efetivamente, dois textos iguais, na escritura hipertextual”.
» No hipertexto as notas de rodapé são outros textos, que conduzem a outros vários textos, bastando, para isso, utilizar/clicar os links eletrônicos, o que torna o hipertexto multilinear.
» No hipertexto não há artigo com estrutura pronta e definida, mas a possibilidade de criação de várias outras estruturas, bastando, para isso, a exploração das diferentes conexões possíveis. A não-linearidade sugere descentramento, ou seja, inexistência de um foco dominante. Isto não chega a ser uma exclusividade do hipertexto, pois se observarmos, um texto impresso sempre foi passível de muitas interpretações e de múltiplas leituras.
» A deslinearização é um processo de construção de sentido muito antigo e normal. A novidade é que a deslinearização no hipertexto é uma técnica de produção, e no livro impresso é uma forma de recepção. Apesar do hipertexto fugir a linearização, ele não se trata de uma produção textual aleatória, pois isto tornaria ininteligível a informação. Há, sim, uma linearização mínima, seja em parágrafos, capítulos, pequenas peças que podem ser lidas seqüencialmente. Um aspecto importante da deslinearização é que ela não é comandada por um único autor, pode-se acessar textos de autores diversos e temas variados, desde que se queria aprofundar a leitura. Sabendo que linearidade lingüística é um princípio básico da teorização da língua, o hipertexto não rompe esse padrão, ele rompe a ordem de construção ao propiciar um conjunto de possibilidades de constituição textual plurilinearizada , condicionada por interesses e conhecimentos do leitor-co-produtor.
» Os desafios do hipertexto estão na área do ensino. O hipertexto acarretará redefinições curriculares, revisão e identificação de fontes, estabelecimento de um corpo de conhecimentos que possibilite a ordenação do fragmentário.
» O hipertexto é um ponto de chegada e não um ponto de partida no caso do ensino. Sendo a escola este espaço de interação social onde práticas sociais de linguagem acontecem , o trabalho com gêneros textuais torna-se imprescindível, haja vista que os gêneros existem quase que em número ilimitado, variando em função da época, das culturas e das finalidades sociais, assim, cabe à escola a tarefa de privilegiar textos de gêneros que aparecem com maior freqüência na realidade social e no universo escolar, tais como notícias, editoriais, cartas argumentativas, artigos de divulgação cientifica, verbetes, enciclopédicos, contos, romances entre outros. Portanto, o ensino de Língua Portuguesa deve ser centrado no conhecimento lingüístico e discursivo com o qual o sujeito opera ao participar das práticas sociais mediadas pela linguagem, o que justifica a relevância do ensino de leitura e produção de textos focados em gêneros textuais, visto que estes permitem lidar com a língua em seus mais diversos usos no cotidiano de uma determinada comunidade.
» No tópico “Ensino e Natureza da linguagem” do PCN de Língua Portuguesa, discute-se a necessidade de um projeto educativo em que socialização e cultura interajam de diversas maneiras a desenvolver a habilidade de leitura,escrita e interpretação textual. Ao fazer tal afirmação, percebe-se que o letramento deve ser produzido no processo de participação de práticas sociais que usam a escrita como sistema simbólico.
» Sendo assim, os gêneros são rotinas sociais do nosso dia-a-dia e ,por isso, não devemos concebê-los como modelos isolados nem como estruturas rígidas e tão próprias, mas como formas culturais e cognitivas de ação social. De acordo com o Parâmetro Curricular em questão, a linguagem contém em si a fonte dialética da tradição e da mudança. Assim,temos que ela conserva um vínculo muito estreito com o pensamento, tendo duas funções distintas, quais sejam: a0 construtora de quadros de referencia cultural; e b0 mediadora da abstração ou concretização do pensamento.
» Bakhtinianamente falando, o discurso é uma totalidade viva e concreta e não uma abstração formal, por isso, o enunciado ou discurso não deve ser entendido como ato solitário, principalmente porque é peça fundamental na socialização. A noção de gênero vem sendo tulmutuada por parâmetros para observação e caracterização, contudo, os gêneros diferenciam-se em certos aspectos funcionais e é por isso que eles multiplicam-se para dar conta das inúmeras atividades desenvolvidas cotidianamente. Apesar do que foi exposto anteriormente, todo e qualquer texto se encaixa em determinado gênero , a depender das intenções comunicativas que geram usos sociais que os determinam. Sendo “a escola um espaço de interação social onde práticas sociais de linguagem acontecem e se circunstanciam, assumindo características bastante específicas em função de sua finalidade”(pag.22). os gêneros textuais devem atuar de maneira a reconstruir e desenvolver habilidades discursivas e sociais nos alunos que , por sua vez , constituem-se como uma das variáveis do ensino. O fenômeno lingüístico deve agir no indivíduo como um ato significativo de criação individual, atuando como ciência da expressão.
Trabalho apresentado pela disciplina de Língua Portuguesa XI, da professora Adriana Barbosa, pelos discentes: Cláudio Pires, Eloi Miranda, Jorge Duarte.

domingo, 22 de novembro de 2009

*UMA ANALISE DA MODALIDADE ORAL EM LIVROS DIDÁTICOS DE PORTUGUÊS DA QUINTA SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL



Cláudio Pires
Eloi Miranda
José Jorge

Resumo

O objetivo deste artigo é refletir sobre a oralidade no livro didático de língua portuguesa, da quinta série do ensino fundamental. Para tanto foram discutidas as diferenças e semelhanças entre as modalidades orais e escrita da língua, a presença de preconceitos lingüísticos com relação às variedades orais e os gêneros textuais orais de diferentes esferas sociais conforme a perspectiva indicado nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa. A metodologia utilizada foi à pesquisa documental da obra que faz parte da coleção intitulada Projeto Araribá, editado em 2006, organizado e desenvolvido pela editora moderna, sendo uma obra coletiva concebida por vários professores. Esta discussão está sedimentada nos estudos da língua falada – Marcush, Dolz e Schneuwliy –, dos gêneros – Bakhtin – e da variação lingüística – Bagno. A partir do exposto neste trabalho, pode-se, entre outros fatores, observar que a língua falada não é muito valorizada nos livros didáticos da educação básica.


Palavras-chave: Língua portuguesa, ensino, gêneros textuais, modalidade oral.


PRIMEIROS OLHARES

Neste trabalho analisaremos o livro didático de língua portuguesa, da quinta série do ensino fundamental, editado em 2006, organizado e desenvolvido pela editora moderna, sendo uma obra coletiva concebida pelos professores: Áurea Regina Kanashiro, bacharel em Letras pela USP; Daniela Cristina Pinheiro Cohen, bacharel em Letras pela USP; Maria Teresa Rangel Arruda Campos, licenciada em Letras pela USP; Rosana Correa Pereira El Kadri, bacharel e licenciada em Letras pela PUC-SP, professora de Ensino Fundamental e assessora em educação; Rosane Límoli Paim Pamplona, licenciada em Letras pela USP, professora de ensino fundamental, médio e superior, consultora em educação e autora de livros infanto-juvenis. Esta obra faz parte da coleção intitulada Projeto Araribá.
Para subsidiar a nossa análise documental embasamos nossos estudos na discussão dos estudos da língua falada, sabendo que a fala é uma atividade fundamental para haver qualidade na comunicação humana. O certo é que hoje se torna cada vez mais aceita a idéia de que a preocupação com a realidade de ser também partilhada pelos responsáveis pelo ensino da língua, como afirma Marcuschi (2005:21).
Os autores do livro didático fazem uma breve apresentação do livro destinando-a principalmente ao seu público alvo que serão os alunos que manusearam durante o ano letivo. No início da apresentação eles abordam sobre a constante aprendizagem, que ocorre a todo o instante. Quando chegam ao terceiro parágrafo eles concluem afirmando que:

Esta coleção foi elaborada com a intenção de ajudá-lo a aprender, a conhecer a língua portuguesa, de modo a permitir que você descubra muitas coisas boas em meio a tantas informações.

Encontra-se nesse parágrafo, a nosso ver, a primeira lacuna desta coleção em relação aos estudos lingüísticos, pois, sabe-se que todo falante nativo de uma língua, conhece muito bem a sua língua. Embora não domine a gramática normativa, ele desempenha plenamente o ato comunicativo, de forma que é capaz de descobrir qualquer coisa somente com a linguagem a qual domina (língua portuguesa). Dessa forma, não há necessidade de conhecer a gramática prescritivo-normativa para que o aluno possa entender o mundo que está a sua volta. Se fosse assim, as pessoas não alfabetizadas seriam incapazes de sobreviver e até mesmo ter sucesso em sua vida social, afetiva e profissional.
Sabendo esse livro foi preparado para um público infantil, os autores deveriam atentar-se que as crianças não são uma tábula rasa, mas, que elas têm o conhecimento de língua adequado para a sobrevivência, sendo que o papel da escola não é ajudá-las a aprenderem a língua da qual elas já conhecem perfeitamente, mas ampliar o repertorio lingüístico abrindo um leque de possibilidades para que elas possam saber escolher em qual momento devem ou não utilizar as diversas modalidades, inclusive a culta.

Todos podemos ver diariamente que as crianças tão bem sucedidas no aprendizado das regras necessárias para falar. A evidencia é que falam. Se as línguas são sistemas complexos e as crianças as aprendem, de uma coisa podemos ter certeza: elas não são incapazes...

Em relação à modalidade oral da língua, que é o objeto de estudo desse artigo, ainda no mesmo parágrafo da apresentação do livro, os autores limitam o texto oral ao afirmarem que:

Saber ler e escrever faz diferença na vida: é importante para você se desenvolver como pessoa, como estudante e como profissional, permitindo o exercício da cidadania. As atividades de produção de texto estão presentes continuamente na vida das pessoas nos dias atuais. Muitas vezes, comunicamos por escrito o que pensamos, o que sentimos e o que descobrimos.

Em qual aspecto há desempenho oral da linguagem nesse contexto? Será que para se desenvolver como pessoa e como profissional o individuo só necessita saber ler e escrever? Todos que sabem ler e escrever “corretamente” são bem sucedidos em sua vida profissional? A oralidade não está presente no processo comunicativo? São indagações que deixam dúvidas em um leitor mais atento aos fenômenos lingüísticos quando se deparara com um texto dessa qualidade na apresentação de um livro didático. A expressão oral permeia todos os âmbitos da vida de um cidadão, na escola, na igreja, em sua comunidade. É necessário também saber se expressar oralmente para o exercício da cidadania, para que o indivíduo possa entrar e sair de qualquer ambiente, sem ser discriminado ou excluído. Além disso, para que ele possa defender seus direitos faz-se necessário ter uma boa oratória. As aulas de português não devem basear-se somente na leitura e na produção textual escrita, mas também na leitura dos fatos políticos, sociais e econômicos da sociedade e na produção de textos orais dentro ou fora da sala de aula. O que se observa é que na apresentação do livro os autores não enfatizam a oralidade, mas dizem constantemente que:

As atividades de produção de texto estão presentes continuamente na vida das pessoas nos dias atuais. Muitas vezes, comunicamos por escrito o que pensamos, o que sentimos e o que descobrimos.

No entanto no sumário do livro didático analisado, constatamos que os autores dedicaram um tópico, ou subtópico para o desenvolvimento da oralidade, da mesma forma como dedicaram capítulos inteiros para o estudo da gramática, ortografia, pontuação, leitura, produção e interpretação de textos.
Sobre os capítulos, verificamos que todos se iniciam com a leitura de um texto não verbal, que introduz o aluno no eixo principal dos conteúdos apresentados no capítulo e propõe atividades escritas e/ou orais. Nessa parte, discretamente os autores incluem questões para serem respondidas oralmente entre os colegas de classe. Ressalta-se que as questões de interpretação são para serem escritas no caderno e sempre vêm antecedidas à frase escreva no caderno, copie no caderno, reescreva com suas palavras e etc. Quando as questões são para serem respondidas oralmente vêm antecedida as frases discuta com seus colegas, troquem idéias e etc. Um fato digno de observação em um livro que mostrou na sua apresentação um distanciamento da oralidade, é que no primeiro capitulo há uma seção que orienta e normatiza técnicas de como se expressar oralmente em público.

Regras para uma discussão eficaz.
Espere sua vez de falar.
Evite falar ao mesmo tempo que o outro(a) colega, para que todos se escutem.
Ouça com atenção as idéias dos outros.
Respeite as opiniões contrárias as suas. Eles podem reforças suas opiniões ou fazer com que você repense alguma idéia.
Alguém da classe pode ficar responsável por anotar a ordem em que os alunos devem falar, se muitos quiserem apresentar suas ideais.
Na sua vez de falar, procure ser objetivo.

Na parte final há uma seção que orientam o professores sobre a utilização do mesmo. Na introdução, eles dedicam a primeira parte para defini a concepção de linguagem trabalhada no livro. Destacamos algumas partes em que há uma alusão a questão da oralidade:

No processo de interação na e com a linguagem verbal os sujeitos utilizam a leitura, escrita e a fala em diferentes situações. O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade lingüística, são condições de possibilidade de plena participação social. [...]. Considerando os diferentes níveis de conhecimento prévio, cabe a escola promover sua ampliação de forma que progressivamente, durante os oito anos do ensino fundamental, cada aluno se torne capaz de interpretar diferentes textos que circulam socialmente, de assumir a palavra e, como cidadão, de produzir textos eficazes nas mais variadas situações. Nesse sentido, tanto a leitura proficiente quanto a produção competente de textos orais e escritos, práticas sociais fundamentais, apresentam-se como requisitos básicos não só para o desenvolvimento pessoal, mas também para a participação efetiva na sociedade, nas situações especificas que requerem tais práticas com: participar de conversas, de apresentações teatrais, seminários, de reuniões em família, assistir a programas televisivos, comunicar-se com parentes distantes [...] (grifos nossos)

Na parte dedicada à estrutura da coleção da obra analisada, não há muita ênfase para a produção do texto oral. Dessa forma, apresenta-se uma aparente contradição entre os “Princípios norteadores da coleção” e a estrutura do mesmo. Pois, como foi proposto a produção de textos orais, isso não se concretiza na coleção, ou seja, o que está em questão não é a ausência da oralidade e sim a forma como é trabalhado esporádica e desestruturada, se o aluno tem toda uma orientação sobre a construção sobre a construção de um texto escrito, que deve seguir uma certa ordem, despedindo do gênero trabalhado, assim também ocorre com o texto oral, mas não é assim que a coleção trabalha. Como se observa o quadro retirado do manual na parte da estrutura da coleção conforme segue em anexo.
Quando muito, os autores põem algumas questões descontextualizadas para os alunos responder oralmente, puramente informal, sem nenhuma orientação e organização, como se observa no trecho abaixo que faz parte das orientações para o professor que fica no cabeçalho do livro:

Sugestão de atividade oral: pedir a quatro alunos que contem a história oralmente. Como ela é um pouco longa, pode-se dividir a leitura por linha. Cada um conta o que deve acontecer em cada linha da tira. Seria interessante que, para contar o que acontece em cada quadro de cada linha, o aluno dissesse uma frase. Essas frases devem corresponder a cada um dos acontecimentos que compõe a ação da história. (grifos nossos)


Esse tipo de atividade oral são incoerentes com discurso do livro, no qual enfatiza em seus “Princípios norteadores” a prática da oralidade, pois esse tipo de exercícios – discuta com seus colegas, troquem idéias, conte resumidamente para um colega, converse com os colegas, leia as frases em voz alta, reconte a história oralmente e etc. – o aluno já pratica intuitivamente fora da educação formal, em sua casa com seus pais, com os colegas nos intervalos de aula, na igreja ou clube onde freqüenta.
A nosso ver o papel da escola é ensinar ao aluno a estrutura e organização da modalidade oral em situações formais, como em apresentações de seminários, em debate retrato etc., como afirma Marcush (2005: p. 24):

Os autores de manuais didáticos, em sua maioria, ainda não sabem onde e como situar o estudo da fala. A visão monolítica da língua leva a postular um dialeto de fala padrão calcado na escrita, sem maior atenção para as relações de influencias mutuas entre a fala e escrita. Certamente, não se trata de ensinar falar. Trata-se de identificar a imensa riqueza e variedade de usos da língua. Talvez, a melhor maneira de determinar o lugar do estudo da fala em sala de aula seja especificando os aspectos nos quais tal estudo tem a contribuir.

Cabe também a escola trabalhar a oralidade cunhada sobre o víeis da variação mostrando aos alunos os diferentes tipos de falares regionais existentes em nossa língua como também em outros. Para isso existe uma infinidade de sugestões para ser trabalhado ao invés de somente pedir para que os alunos reproduzam sua fala natural.


A PRESENÇA DA ORALIDADE NO MANUAL

Os conteúdos apresentados no livro didático analisado abordam as diferenças entre as modalidades orais e escrita da língua. No momento em que eles especificam as atividades do texto oral e do texto escrito, como também promove produção escrita e oral, ou seja, discussão na sala de aula.
Sabe-se que a modalidade oral nunca foi reconhecida como uma forma padrão para ser seguida e respeitada, ao contrário, sempre foi estereotipada pelos autores de livros didáticos e julgada e avaliada com juízo de valores sociais atribuídos a quem se serve delas, pensando-a como uma forma pobre, rude e sem escrúpulos de para que haja comunicação de acordo com Bagno em “Nada na Língua é por acaso” p.70.
Essa cultura de valorização da língua escrita, normativa, vem se perpetuando há milênios quando foram feitas as primeiras descrições sistemáticas da língua grega no período e que o império grego se expandiu e a língua helênica precisou se normatizar, ou seja, de criar um padrão uniforme e homogêneo para que se erguesse acima das diferenças regionais e sociais, transformando-se num instrumento de unificação político-cultural. De lá pra cá os estudos da linguagem vem supervalorizando a escrita em detrimento da fala, embora a oralidade esteja presente em todos os aspectos da vida de uma pessoa, pois, todo o momento, o ser humano precisa se comunicar para sobreviver, falar em público, expor suas opiniões com clareza, coesão e coerência.
Os autores do livro analisado, embora pequem em relação à supervalorização da linguagem escrita, evoluíram também ao acrescentar no livro, questões para debate e formas de discussão oral:

Resenha oral
Você vai fazer uma resenha oral de um livro de que tenha gostado muito. Lembre-se de apresentar as seguintes informações: a) O título, o autor e a editora. b) Os dados principais do enredo do livro e outros aspectos que achar relevantes. C) Por que você gostou do livro.
Orientar os alunos para prepararem sua resenha antes de apresentá-la, fazendo anotações a fim de não esquecer dados (como o título correto do livro, o seu autor, etc.).


AS VARIEDADES LÍNGUISTICAS ORAIS

Outro dado refere-se ao fato de que não se percebe claramente o preconceito lingüístico com relação às variedades orais, falares regionais, registros informais, pois, o livro didático analisado aborda os diferentes tipos de linguagem. A língua é abordada nas suas diferentes maneiras, situações, lugares determinados para cada discurso, diferenças essas que nos caracterizam, identificam e demonstram nossa identidade cultural. Inclusive o livro traz tirinhas caracterizando o falar regional. Percebemos que não há uma alusão com um falar pobre, feio, ridículo, esdrúxulo, porém, como outra alternativa, outra variedade. Aborda também a linguagem formal e informal:

Essa distorção aparece freqüentemente nos livros didáticos de português, onde é muito comum o fenômeno da variação lingüística ser tratado como exclusividade dos falantes rurais – o que explica a presença insistente das tirinhas do Chico Bento nos livros e materiais didáticos, como se só existisse variação (isto é, no fim das contas, “erro”) na fala dos “caipiras” e “matutos”.


OS GÊNEROS EM DISCUSSÃO

Quando se produz um discurso, esse é manifestado por meio de textos. Um discurso é carregado de significado e sempre tem como objetivo comunicar algo criado a partir das relações sociais. Todo texto é pensado em função de determinado gênero, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental: os gêneros são, portanto, determinados historicamente constituindo formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura.
Sendo assim, o ensino da língua não compreende mais a analise de estratos – letras, fonemas, sílabas, palavras, sintagma, frases – que descontextualizados são geralmente tidos como único objeto de estudo da língua. Atualmente o ensino da linguagem vem se estruturando do todo para as partes, ou seja, do contexto para o texto, do texto para análise das partes.
Hoje se sabe que existe uma variedade ilimitada de gêneros textuais, orais e escritos. Dessa forma, o professor de língua tem um aparato infinito para desenvolver suas aulas, sem ficar preso a frases descontextualizadas. De acordo com as orientações dos PCNs LP, o professor deve procurar, na medida do possível, trabalhar com as variedades textuais escritas e orais existentes, e não somente focalizar sua prática em um gênero textual e nem no ensino da modalidade textual escrita em detrimento da oral, conforme está exposto: o ensino e a aprendizagem, como prática pedagógica, são resultantes da articulação de três variáveis: o aluno; os conhecimentos com os quais se opera nas práticas de linguagem e a mediação do professor.
Com embasamento nessa tríade exposta, o professor deve planejar, programar e dirigir as atividades didáticas como o objetivo de apoiar e orientar o esforço de ação e reflexão do aluno, procurando garantir a aprendizagem efetiva. Do aluno espera-se que seja capaz de utilizar a linguagem de modos variados para a efetiva produção de textos orais ou escritos em diferentes situações do seu dia-a-dia.
Diante disso, o professor/educador precisa selecionar textos de diferentes épocas, culturas ou finalidades sociais, priorizando os textos que caracterizem os usos públicos da linguagem escrita e oral e que favoreçam a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaborado e abstrato.
Uma das alternativas para que essas propostas postas nos PCNs LP se concretizem é a utilização mais consistente dos textos orais nas aulas de Língua Portuguesa, pois, os alunos, ao ingressarem na escola já dispõem de competências discursivas e lingüísticas para comunicar-se em relações sociais do seu cotidiano. Dessa forma, cabe a escola ensinar o aluno a utilizar esses gêneros orais no planejamento e realização de suas apresentações públicas, realizando entrevistas, debates, seminários apresentações teatrais e etc.
Nada melhor para realizar tais tarefas do que um livro didático que forneça subsídios para o professor pautar sua prática. Desse modo, constatou-se que no livro didático analisado, há presença de algumas propostas que trabalham com a oralidade na perspectiva dos gêneros textuais orais. As atividades que será exposta aos alunos deve atender as suas reais necessidades, aproximando o máximo do social para que não se torne um método mecânico.
Com isso verificamos que o livro didático analisado é composta por 8 unidades, organizadas em 2 partes, e explora o estudo do texto como ponto fundamental para o desenvolvimento da competência leitora. Este trabalho inclui tipologias textuais escritos que na visão dos autores são de fundamental importância para a vida do aluno como a narração, a descrição, a exposição e a argumentação, porém foi observado que pouca estima se dá ao gêneros textuais orais.
Em cada unidade o Estudo do texto é organizado em 2 partes distintas. Na primeira, são explorados os sentidos do texto, o foco da unidade e a linguagem. Na segunda, o aluno é estimulado a levantar e checar hipóteses a respeito do texto com base no que aprendeu durante a primeira parte.
Composto por diferentes gêneros textuais, como a crônica, a reportagem e o artigo de opinião, a organização do livro segue dois critérios que facilitam o domínio da língua escrita que é a exploração de um único tipo de texto em cada unidade, para um estudo mais aprofundado.
Os conteúdos são divididos em duas partes: a primeira apresenta uma seleção de textos atualizados com temas que vão ao encontro à realidade dos alunos; a segunda aprofunda o trabalho com o gênero apresentado na primeira parte e estabelece objetivos para a leitura. Para o estudo do texto, o livro explora questões de recuperação de informações e estuda aspectos gramaticais, discursivos e de estrutura do texto trabalhado.
Na primeira parte de cada unidade, o aluno produz pela "observação de modelo". Na segunda parte, ao desenvolver o "método de processo", o aluno é orientado durante toda a elaboração do texto. O livro didático analisado prioriza a diversidade de gêneros textuais escritos, de modo que o aluno amplie suas possibilidades de comunicação escrita.
O tratamento da gramática no livro analisado pode ser sintetizado em cinco idéias básicas: primeira é o programa completo: contempla todo o currículo do Ensino Fundamental; a segunda é a programação em espiral: os conceitos são retomados, favorecendo a compreensão; a terceira é o método que apresenta cada conceito com base em uma análise do texto; a quarta são as atividades que propõem relações entre o aspecto formal e o sentido do texto; a quinta é o trabalho com a ortografia que explora a ortografia e as questões da língua com um método indutivo, partindo da observação para chegar à norma.
Nas partes 1 e 2, o uso da língua é apresentado de maneira contextualizada. Em seguida, as seções de exercícios permitem a compreensão e a fixação dos conceitos e estimulam o aluno a aplicar o que aprendeu.
Em cada final de unidade há uma proposta de um projeto extraclasse. Nesse projeto são incentivados a produção de tipologia textuais escritos como: descrição, exposição cultural, confecção de álbuns escritos, criação de anúncios, classificados, varal de poemas, história em quadrinhos e só uma unidade (4) que é dedicada ao trabalho exclusivo com o gênero textual oral. Nesse caso quando os autores propõem que os alunos realizem um diálogo dramatizado:

No dia marcado pelo professor as equipes apresentarão a dramatização do seu texto. Lembrem-se: para garantir a expressão mais precisa das reações e dos sentimentos da personagem, é preciso ensaiar as falas; cada equipe deve trabalhar bem o texto; as falas devem estar claramente marcadas e ser bem pronunciadas.

É interessante observar que no início do livro didático, as seções dedicadas às questões para serem respondidas pelos alunos (Pratique, A gramática em contexto e Desafio) enfatizavam muito mais a oralidade do que as questões das unidades posteriores, que foi desviando o foco para a prática da leitura e escrita. Segundo o levantamento de dados realizado, constamos que só foram dedicadas 44 questões sobre o trabalho oral em todo o livro didático, sendo que analisamos cada capitulo e verificamos a quantidade de questões dedicadas ao trabalho com a oralidade:

TABELA 01 – Distribuição das atividades com a oralidade nos capítulos do livro.
CAPITULO QUESTÕES
1. 08
2. 08
3. 04
4. 05
5. 03
6. 05
7. 07
8. 08
TOTAL 48

Se fossem contadas todas as questões para o aluno responder que estão presentes nesse livro didático (não achamos necessário fazer esse trabalho) provavelmente seria 90% para gêneros textuais escritos e 10% para os gêneros textuais orais.
O livro analisado não trabalha totalmente com a perspectiva dos gêneros textuais orais de acordo com a proposta do PCNs LP, apenas, em alguns momentos compartilha, a oralidade em ocasiões muito informais, não como esferas sociais escolares, jornalísticas e profissionais, pois, não propõe seminários, programas esportivos e etc, mas somente algumas entrevistas e debates.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da discussão sobre a modalidade observamos que no livro didático analisado houve grande descaso com a questão da modalidade oral da língua, mas também percebemos que a realidade está aos poucos se modificando e sutilmente a questão da oralidade está se fazendo presente nos manuais didáticos de língua portuguesa. Enaltecemos também os PCNs LP que incentiva o uso da modalidade oral. Em todas as suas formas, sendo isso, um grande avanço para a educação brasileira, pois, sabendo que os PCNs LP é um documento oficial, é muito relevante abordar as questões da oralidade em suas paginas.
Em ralação aos aspectos da variedade lingüística, é sabido que o livro dá uma ênfase substancial, mas não deixa de sempre está lembrando que existe e é uma realidade em nossa língua, porém, esse assunto precisa ser mais debatido no livro analisado, fazendo com que o educando faça pesquisas, relatórios e etc., intercalando sempre a variação lingüística com a questão da oralidade.
Enfim esperamos que essa pesquisa possa servir de uma reflexão mais aprofundada sobre os manuais didáticos, auxiliando nós professores de língua portuguesa na escolha dos seus livros e quem sabe até mesmo os autores de livros para que possam rever sua prática e assim ocasionar mudanças significativas nos futuros livros de língua portuguesa contemplando de forma mais detalhada e apurada o uso da modalidade oral de nossa língua, e assim possa beneficiar o nosso principal público alvo que é o aluno da educação básica.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MEC/ SEF. Parâmetros Curriculares Nacionais – terceiro e quarto ciclos (Língua Portuguesa). Brasília, 2001.
MARCUSCHI, Luís Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização.3.ed.SP: Cortez,2001.p15-43.
MARCUSCHI, Luís Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização.3.ed.SP: Cortez,2001.p15-43.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Projeto Araribá: Português/obra coletiva, concebida, desenvolvida e produzida pela Editora Moderna; editora responsável Áurea Regina Kanashiro – 1ª ed. – São Paulo: Moderna, 2006, pg. 09.
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação lingüística. São Paulo: Parábola 2007.
O texto na sala de aula/João Wanderley Geraldi organizador; Milton José de Almeida. 4 ed. – São Paulo: Ática, 2006, in. Sobre o ensino de português na escola. Sírio Possenti. pg. 34.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Conceito de substantivo na ótica do gramático Evanildo Bechara



Substantivo é a classe de lexema que se caracteriza por significar o que convencionalmente chamamos de objetos substantivos, isto é, em primeiro lugar, substancias (homem, casa, livro) e, em segundo lugar, quaisquer outros objetos mentalmente aprendidos como substancias, quais sejam qualidades (bondade, brancura), estados (saúde, doença), processos (chegada, entrega, aceitação).

Estrutura interna do substantivo – a estrutura interna ou constitucional do substantivo (isto é, sua morfologia) consiste, nas línguas flexivas como o português, em geral, na combinação de um signo lexical expresso pelo radical com signos morfológicos expressos pelo radical com signos morfológicos expressos por desinências e alternâncias, ambos destituídos de existência própria fora dessa combinação. Entre as desinências que, na flexão, se combinam com o substantivo está a marca de número e, nas línguas que a possuem, a marca de caso (nominativo, acusativo, etc., como se dá, por exemplo, no grego, no latim, no alemão). O substantivo, fora da flexão, pode ser dotado da marca de gênero: menino/menina, gato/gata.

Segundo as informações retiradas da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, observa-se veementemente uma avaliação descritiva da língua, especialmente em relação à classe de palavras denominada de substantivos.
Bechara chama-nos a atenção para o fato da abstração e concretização dos substantivos, que geralmente vem sendo ensinada equivocadamente nas séries iniciais do ensino fundamental, e por que não dizer até mesmo, nas séries avançadas e no ensino médio, de acordo com alguns professores dessas series, os substantivos concretos são aqueles sensíveis, que se pode tocar ou ver, e os abstratos são todos os seres imaginários. Bechara nos alerta para o fato de que os substantivos concretos são o que tem existência independente e os abstratos são os que dependem de um ser ou objeto para existir.
Outro caso notável que observamos na gramática de Bechara é a questão dos substantivos próprios e comuns, mais um fator que vem sendo ensinado erroneamente nas escolas de educação básica no país, quando alguns professores atribuem nomes comum como sendo próprio, simplesmente por não haver mais de um em nosso contexto social (papa, sol, lua, domingo), Bechara diz que se esses nomes forem escritos com maiúscula, deve-se o fato a pura convenção ortográfica, e não porque são próprios.
Ainda no estudo dos substantivos comuns e próprios, observamos que o autor destaca também a passagem de nomes próprios a comuns. Isso ocorre quando pegamos qualidades ou defeitos de um ser individual para transferir a um grupo mais numeroso de seres. Como exemplo temos na personagem histórica do discípulo Judas, não só o nome de um dos apóstolos, aquele que traiu Jesus, porém um nome que virou sinônimo de traidor ou amigo falso, em expressões do tipo: Fulano é um judas. Há ainda os nomes de pessoas ou lugares onde se fazem ou se fabricam certos produtos que passam a ser nomes próprios: sanduíche (do conde Sandwich), champanha (da região francesa Champagne).
Bechara destaca também as subclasses dos substantivos, entre essas estão às classes contáveis e não-contáveis, segundo ele a categorias dos não-contáveis pertence o substantivo coletivo, que, na forma de singular, faz referencia a uma coleção ou conjunto de objetos. Entre os coletivos há os universais, que não são contáveis e por isso só se pluralizam nas condições especiais à classe, e há também os particulares que se contam e podem ser pluralizados.
Mais um fato interessante é que ele destaca a diferença entre os coletivos e os nomes de grupo. São nomes de grupos os conjuntos de objetos contáveis, que se aplicam habitualmente ou uma espécie definida (cardume, alcatéia, enxame) ou total ou parcialmente indefinida (conjunto, grupo, bando).
Em relação à flexão de número do substantivo, estes podem pertencer ao singular ou plural, quando o singular designa vários objetos de uma mesma classe considerados num todo, chamamos de coletivo: professorado, alunado, cardume, etc.
Segundo Bechara, em português, o significado gramatical plural é obtido com a presença da desinência pluralizadora – s, o singular se caracteriza pela ausência desta desinência. A flexão de número, em português, se estende ao adjetivo e ao verbo.
Se tratando da flexão de gênero do substantivo, o que diferencia Bechara de outros gramáticos é o fato dele ressaltar a inconsistência do gênero gramatical, segundo ele a distinção do gênero nos substantivos não tem fundamento racional, exceto a tradição fixada pelo uso e pela norma. Não tem lógica lápis e papel serem masculinos enquanto caneta e folha serem femininos.
A incoerência do gênero gramatical tornar-se evidente quando se confronta a classificação de gênero em duas ou mais línguas, e até no âmbito de uma mesma língua quando analisada diacronicamente. Mesmo nos seres animados, as formas do gênero não determinam o sexo, como ocorre com os substantivos chamados epicenos, comuns de dois, e sobrecomuns. Outro fato relevante que Bechara inclui em sua gramática em relação ao gênero é a questão da mudança de gênero, derivadas das aproximações semânticas entre as palavras, da influencia da terminação, do contexto léxico em que a palavra funciona, e do próprio falante, ele ainda cita alguns exemplos na variedade temporal do português de palavras que passaram a ter gêneros diferentes: já foram femininos, fim, planeta, cometa, mapa, tigre fantasma e etc., e já foram masculinos os substantivos: arvore tribo, catástrofe, hipérbole, linguagem entre outros.
O sistema gramatical teve que se adaptar as convenções sociais e a presença casa vez mais acentuada da mulher no mercado de trabalho criando usos particulares de gêneros femininos que nem sempre foi adotado na língua portuguesa padrão.
Quanto ao grau, os substantivos apresentam-se com a sua significação aumentada ou diminuída, auxiliadas por sufixos derivacionais. O aspecto que mais destaca Bechara de outros autores de gramáticas, é que ele ressalta a confusão que a NGB fez com relação à flexão e a derivação, estabelecendo os dois graus de significação dos substantivos: aumentativo e diminutivo. Ele diz que a derivação gradativa do substantivo se realiza por dois processos, numa prova evidente de que estamos diante de um processo de derivação, e não de flexão. Os processos são: sintético – consiste no acréscimo de um final especial chamado sufixo derivacional aumentativo ou diminutivo – e o analítico – que é o emprego de uma palavra de aumento ou diminuição junto ao substantivo.
Outro aspecto que ele ressalta em relação ao “grau” é que fora da idéia de tamanho, as formas aumentativas e diminutivas podem traduzir o nosso desprezo, a nossa critica, o nosso pouco caso para certos objetos e pessoas, influenciado pelo contexto e auxiliado por uma entoação especial (critica admirativa, lamentativa, etc.).
Além de tudo que já foi analisado até agora, Bechara ainda comenta sobre a função sintática que os substantivos exercem na língua portuguesa. Ele diz que os substantivos funcionam especificamente como o sujeito (ou seu núcleo) da oração e, no domínio da constituição do predicado, adjunto adnominal e adjunto adverbial. Em geral, a função de sujeito e de objeto direto o substantivo ganha a concorrência de qualquer outro elemento.
Para encerrar Bechara fecha o estudo dos substantivos com “chaves de ouro” discorrendo sobre a influencia dos nomes próprios estrangeiros na língua portuguesa. Ele menciona os antropônimos e os topônimos, acrescentando algo interessante: nos antropônimos, a tradição literária, prefere quando possível, aportuguesar o prenome, deixado o sobrenome intacto (Renato Descartes, Antônio Meillet e etc.).
Vimos através desta curta analise que o autor busca de maneira cientifica, estudar os fenômenos ocorrentes na língua, destacando as coerências e incoerências relacionadas às classes de palavras, mas especialmente os substantivos, assim ele deixa que o leitor tenha uma visão crítica a respeito de sua própria língua e dos modelos que a convencionaram.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BECHARA, Evanildo – Moderna Gramática Portuguesa – 37ª. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. 112 p.

EMPRÉSTIMOS LINGUÍSTICOS


Cláudio Henrique de Souza Pires - UESB/Jequié



CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Dentre os estudos do léxico da língua portuguesa, o que mais se destaca, por sua perspicácia e polêmica por parte da mídia e os demais meios de comunicação é a questão dos empréstimos lingüísticos, mas especificamente os estrangeirismos oriundos da língua inglesa, americana ou anglo-saxônica.
Há muitos esforços políticos para banir os estrangeirismos da língua portuguesa no Brasil com o intuito de conservar a sua “pureza”, estes esforços são em sua maioria originados por pessoas ou instituições que não se aprofundaram nos estudos das ciências da linguagem. Os que defendem a extinção dos estrangeirismos no nosso idioma têm uma preocupação inútil e sem fundamentos teóricos, para embasar essa prática. Embora tenham uma boa intenção e serem sinceros patriotas, porém, estão sinceramente equivocados em relação ao que defendem sobre a nossa língua. Eles não têm o conhecimento diacrônico e muito menos sincrônico da língua portuguesa, somente possuem uma simples visão gramatiqueira do que é a linguagem. Imbuídos apenas em preconceitos lingüísticos, querem, assim como tentam criar um hegemonia lingüista dentro do próprio idioma, excluindo os diversos dialetos falados no Brasil, eles querem também criar uma exclusão de todas as palavras que são de origem estrangeira com base em argumentos falhos e sem coerência. Ignorando a nossa diversidade lingüística os que defendem a extinção do estrangeirismo adotam essa tese:

“nossa identidade nacional reside justamente no fato de termos um território imenso com uma só língua, esta plenamente compreensível por todos os brasileiros de qualquer rincão, independentemente do nível de instrução e das peculiaridades regionais da fala e da escrita”.

A posição política que eles defendem busca justificar o controle social pelo Estado da produção lingüística dos cidadãos. Poderia ser vista como legitima e defensável esta tese somente se fosse entendida como uma posição que busca defender a definição daquilo que conta como a língua do poder a condução das comunidades e da própria sociedade brasileira.
É interessante observar que esse fenômeno não ocorre somente no Brasil, mas em também em outros paises, como nos Estados Unidos, onde os conservadores gramaticais recorrem ao mesmo tipo de ideário, alegando haver ameaça ao inglês americano e com base nessa alegação, propõem ao congresso americano uma legislação de “proteção e defesa” do inglês, coibindo o uso de outras línguas, principalmente o espanhol.
Diante dessas lutas contra a “liberdade de expressão lingüística” podemos observar que sempre os que estão no controle do poder prevalecem e assim beneficiam a classe mais privilegiada da sociedade.
Nós estudantes de Letras, devemos estar conscientes de nosso papel diante dessa luta, devemos erguer a bandeira para defendermos diferenças lingüistas e assim construir um país mais justo e sem preconceitos.
A partir de agora, irei deixar os aspectos políticos-conteporâneos dos empréstimos lingüísticos e falarei um pouco sobre o processo de formação e de incorporação dos empréstimos numa língua, me deterei em apresentar mais especificamente os fenômenos que ocorreram em nossa língua portuguesa ao decorrer dos tempos.

OS EMPRESTIMOS LINGUISTICOS
Sabemos que toda língua adota e adapta vocábulos de outras línguas como parte íntegra de seu processo de desenvolvimento. A língua portuguesa atualmente adota principalmente vocábulos do inglês e do francês e os sujeita aos seus próprios preceitos lingüísticos. Os empréstimos se conformam à fonologia portuguesa e às suas regras de derivação. Os empréstimos também se adotam com restrições semânticas e às vezes com sensíveis mudanças de significado.

TIPOS DE EMPRÉSTIMOS LINGUÍSTICOS
O lingüista brasileiro Joaquim Mattoso Câmara Júnior, embasando-se no lingüista norte-americano Leonard Bloomfield, classifica os empréstimos lingüísticos em três tipos que são os empréstimos culturais, íntimos e dialetais:

• Aos empréstimos lingüísticos culturais pertencem todos os vocábulos adquiridos por meio de relações políticas, comerciais ou culturais entre povos de países diferentes.

• Os empréstimos lingüísticos íntimos são aqueles apreendidos quando duas línguas coexistem num mesmo território, por meio de reações íntimas no interior de uma determinada população.

• Os empréstimos lingüísticos dialetais são os resultados entre os falares de uma mesma língua, ou seja, da variabilidade lingüística regional, das variantes sociais e jargões especializados.

O LÉXICO – A INCORPORAÇÃO DOS EMPRÉSTIMOS
Uma língua não é estática, ao contrário, possui caráter dinâmico, evolui com o tempo. Desta maneira o léxico, aqui, entendido como o conjunto de vocábulos que formam uma língua, amplia-se, pois é através dele que esta se liga ao mundo externo e reflete os aspectos culturais da sociedade que a usa como meio de comunicação. É no léxico de uma língua que se acham incorporadas as experiências de uma comunidade de fala.
Toda língua pertence, fundamentalmente, a dois sistemas que englobam as classes de palavras, ou seja, o léxico ou pertence ao sistema aberto ou ao fechado. Ao primeiro, pertencem o substantivo, o adjetivo, o verbo e o advérbio nominal; ao segundo, o artigo, o numeral, o pronome, o advérbio pronominal, a preposição, a conjunção e a interjeição. Assim, novos vocábulos pertencentes ao sistema aberto podem ser incorporados ao léxico de uma língua. A esse processo denomina-se ampliação lexical que é o que chamamos popularmente de empréstimos lingüísticos, os quais não representam exatamente uma inovação vocabular, mas uma adoção de termos de outras línguas. “é a adequação da língua como saber lingüístico à sua própria superação e tem como determinante fins culturais estéticos e funcionais”.

DIVISÃO DOS EMPRÉSTIMOS LINGUÍSTICOS
Os empréstimos lingüísticos estão divididos em culturais e íntimos, onde dos primeiros fazem parte todos os vocábulos estrangeiros adquiridos em “virtude das relações políticas, comerciais ou culturais, propriamente dita com povos de outros países” . Nos empréstimos íntimos, duas línguas coexistem num dado território, não se processando “de fora para dentro, mas por meio de reações íntimas no próprio interior de uma população dada” . Como exemplo de empréstimo intimo, podemos citar o guarani e o espanhol, presentes no Paraguai; o português e o espanhol, na região fronteiriça entre Brasil e Bolívia, em Guajará-Mirim, no Estado de Rondônia.
Nesse tipo de empréstimo, uma língua predomina sobre a outra, “Há então uma língua forte, porque predominante na sociedade” . Dessa forma, poderão ocorrer três fenômenos: ou a língua dominada desaparece, restando um substrato na língua dominada, ou a língua dominante desaparece deixando um superstrato na língua dominada, ou permanecem as duas línguas, havendo troca de elementos, originando um adstrato. Também, nos empréstimos culturais, há, como nos íntimos, a predominância de uma das línguas: no português, existem termos estrangeiros por força de hegemonia cultural, como: langerie, abajur, chofer, madame (do francês), show, outdoor, e-mail, leasing, over (do inglês). Nas relações comerciais, os empréstimos são recíprocos:

“Não há, propriamente, uma língua predominante, que empresta sem tomar emprestado. Um povo ocidental ‘civilizado’, orgulhoso da superioridade da sua língua, pode nestas condições assimilar variados vocábulos de tribos ínfimas e selvagens. Comprova-o o inglês nas suas vicissitudes comerciais pelos sete mares do mundo”.

Vários são os fatores que podem gerar empréstimos íntimos:

• Imposição da língua dos conquistadores, havendo o predomínio imediato desta, aonde vários imigrantes chegam ao território conquistado, trazendo seus pertences, mulheres e filhos, situação em que os empréstimos vocabulares refletem as características e costumes na nação invasora. O português em relação ao tupi é um exemplo dessa transposição de cultura e sociedade e banimento dos elementos locais, os quais deixam apenas algumas marcas, como, nomes próprios e comuns geográficos, nomes de plantas e animais, mezinhas, comidas aprendidas com os nativos, em forma de substratos.

• Imposição lenta e gradual da língua dos conquistadores, havendo anexação do território conquistado em condições de província. É o caso da romanização do Ocidente durante a expansão do Império Romano, onde a língua dos vencedores foi imposta aos vencidos que permaneceram dentro do seu esquema social, assimilando a nova língua e cultura. Neste caso, também, da língua do povo vencido restam apenas substratos, emprestados à língua dos vencedores, numa situação de diglossia.

• Domínio de um grupo pequeno que desaparece, deixando marcas na língua do vencido como superstrato. Serve como exemplo para esse fenômeno o inglês que possui inúmeros termos vindos do francês por causa das conquistas normandas na Inglaterra.

• A imigração, propriamente dita que leva seus traços para a língua dominante no país em que se instalam para tentar fortuna, como é o caso de imigrantes os Estados Unidos da América, Brasil, entre outros. Estes têm a preocupação de assimilar, da melhor maneira possível, a língua do novo meio social e, a o mesmo tempo, podem infiltrar termos do seu léxico de origem, os quais, na maioria das vezes, são refutados. Ilustram esses fatos, no inglês, o vocábulo hambúrguer, de origem alemã, e, no Brasil, pizza originário do italiano.

São exemplos de empréstimos lingüísticos no Brasil:

• Indianismos: são resultantes da adaptação dos colonizadores. Servem de ilustração para esse tipo de empréstimo os vocábulos jerimum, macaxeira, muriçoca, carapanã, abacaxi, capixaba, açaí, cupuaçu, entre outros.

• Africanismos: resultantes do convívio com os escravos domésticos, principalmente com aqueles do sexo feminino (mucamas, cozinheiras). São exemplos desses empréstimos: macumba, mocotó, caxumba, jiló, banana, zebra, girafa etc.

• Outros estrangeirismos vindos com levas de imigrantes: piano, chau, pizza (do italiano), guerra (do alemão), chocolate, xícara, cacau (do espanhol) muitos outros.

EMPRÉSTIMO LINGUÍSTICO DIALETAL

Segundo Bloomfield, ainda, existe o empréstimo lingüístico dialetal que se realiza entre falares da mesma língua, ou seja, resultante variabilidade lingüística regional, das variantes sociais e jargões especializados. É feito interior da comunidade lingüística, envolvendo formas variantes da mesma língua. Pequenas comunidades lingüísticas são envolvidas por duas forças contrárias a que Saussure chamou espírito de campanário – a qual opera “no sentido de assegurar a estabilidade da língua diante de influências que o penetram de todo lado, provenientes de falares congêneres” e espírito de intercurso – que possui a tendência de quebrar separação existente na língua, através de constantes empréstimos feitos a outros falares.

O empréstimo dialetal afeta de forma diferente o sistema lingüístico, podendo modificar sua estrutura básica. A influência da variante popular sobre a norma culta é uma ocorrência observável na língua portuguesa: o caso de a gente como pronome. Também a variante regional de maior prestígio influencia com seus termos as demais. No Brasil isto ocorre com variante do Centro Sul (Rio – São Paulo) em relação às outras regiões. É o empréstimo de prestígio – fonológico, sintático ou lexical.

Como empréstimo dialetal, inclui-se língua especial, caracterizada por termos técnicos de cada área profissional que se tornam empréstimos lingüísticos quando são aproveitados com o valor rigorosamente técnicos, uso corrente, ou quando termos do uso passam a ser utilizados com sentido uma determinada profissão, decorrente “da delimitação significativa que o termo adquire determinados contextos da língua especial última análise de natureza sintagmática”. Fazem parte, ainda, do empréstimo gírias, propriamente ditas, e a língua literária. As gírias se desenvolvem em contraste com a língua comum, através das classes populares. Isso se dá mais especificamente nos grandes centros urbanos, caracterizando, também “uma atitude estilística (...) de desrespeito intencional à norma estabelecida”. A língua literária, posta em confronto com a língua comum, também apresenta empréstimos, tornando-se, assim, uma língua secundária. Isso se justifica pelo fato de as escolas literárias ou autores possuírem estilos próprios, como, por exemplo, a obra de João Guimarães Rosa, que não corresponde à realidade da língua comum do Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, não existe língua pura, nem estática. Uma das características principais da língua é que ela evolui com o tempo, por isso é dinâmica. Esse dinamismo se vê com mais clareza no léxico, pois este se expande com bastante freqüência para incorporar as experiências pessoais e sociais das comunidades de fala. Com essa expansão lexical, ocorre o fenômeno denominado empréstimo lingüístico, que é a adoção de termos de outra língua ou de termos pertencentes à mesma língua, envolvendo vocábulos das diversas regiões onde esta é utilizada.
Embora o empréstimo não represente uma inovação lingüística, é um mecanismo de grande importância na ampliação do léxico de uma língua, uma vez que os falantes de línguas vivas mantêm um contato interpessoal por causa de sua convivência, promovendo intercâmbio cultural, social e político, utilizando-se, para isso, de um sistema lexical, que é a soma de experiências da sociedade e da sua cultura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS



CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Princípios de Lingüística Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1974.


CARVALHO, Nelly. Empréstimos Lingüísticos. São Paulo: Ática, 1989 (Série Princípios).


FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à Lingüística I: Objetos Teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.


FARACO, Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 3ª ed. 2004. pág. 26.

FRONTEIRA ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO NA PRIMEIRA PARTE DA OBRA O CEMITÉRIO DOS VIVOS DE LIMA BARRETO


Cláudio Henrique de Souza Pires**

Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.
(Lima Barreto)


Neste artigo abordarei a influencia da biografia de Lima Barreto em suas obras, mas especificamente no volume O Cemitério dos Vivos, na primeira parte O Diário do Hospício. Serão tratados alguns temas de relevância tais como: os limites entre a biografia e a ficção e a biografia como concepção literária de acordo com os estudos de teoria da literatura. A metodologia adotada neste artigo foi desenvolvida a partir de reflexões sobre a conduta psico-social do escritor, e suas atitudes durante o período em que passou no hospício, além de comparar com outras obras anteriores ao Diário do Hospício e analisar quais as semelhanças e diferenças encontradas nessas obras e o Cemitério dos Vivos, e assim descobrir qual é o limite que existe entre a realidade e a ficção literária no texto de Lima Barreto. Veremos mais detalhadamente a fusão biográfico-literária; o Diário – realidade ou ficção; projeto ficcional ou realidade em foco; configuração da narrativa – a intenção do autor; a loucura – motivação para a escrita; as personagens – o universo da ficção limana. Em suma, o que se fez ou se faz do autobiográfico e do ficcionalismo na obra de Lima Barreto motiva o desenvolvimento deste artigo.

Palavras chaves: Literatura brasileira, pré-modernismo, Lima Barreto, realidade ou ficção.

A questão da fusão biográfico-literária na obra de Lima Barreto
O Cemitério dos vivos é uma produção literária que representa a ousadia de um escritor que se punha além do seu tempo para assim refletir dentro do aspecto escrituristico as mazelas sociais da realidade brasileira do inicio do século XX. Através de uma capa ficcional, este escritor conseguiu transpor a censura contemporânea e mostrar uma outra face do submundo do Brasil, mergulhando profundamente no intimo do ser humano, por essa razão, foi considerado por muitos críticos um escritor da “alma humana”.
N’O Diário do Hospício, o escritor ocupa-se mais dos outros que de si. Encontramos, em suas paginas, expressões de desalento, mas não de autocomiseração. Mesmo as alusões constantes ao problema da cor ou a adoração nacional pelos doutores, embora ligadas a experiências pessoais, voltam-se para fora, para a sociedade que conhece e sobre a qual testemunha.
Lima Barreto não combate em seu próprio benefício; os preconceitos e as injustiças despertam a sua ira pelo que são, e não pelo fato de atingirem a ele. Longe de ser um ressentido, é ele um lutador, um escritor consciente das desigualdades, das degradações de natureza ética e estética, um ser humano cheio de fervor, sonhando um mundo menos estúpido e clamando até a morte sem meios termos, sem frieza, assumindo posições claras a sua verdade que defendia.
Pouco afortunado na sua vida familiar, - a morte prematura de sua mãe, e a loucura de seu pai devido a vícios -, nada conhece Lima Barreto das riquezas e honrarias legada aos abastados de sua época, devido a seu insucesso na vida acadêmica e a sua falta de sorte como escritor, - com quatro romances publicados sem o devido reconhecimento do publico -, dedica-se a vida boemia e entrega-se ao vicio, até chegar um momento que acaba perdendo a sanidade mental e começa a andar igual a um andarilho pelas ruas do subúrbio carioca, não tendo mais solução é internado como indigente no Hospício, sem que se registre em seu favor alguma solidariedade, sendo também rara a presença de amigos. Ele foi internado duas vezes, a primeira por ordem policial e a segunda por decisão de seu irmão. O hospício naquela época era uma arma nas mãos dos que tinham poder, dos que podiam decidir quem era, ou não, apto a viver em sociedade. Tinha função muito útil para a realização do “progresso” da humanidade por que mantinha a ordem de dominação para afastar aqueles que não se adaptam à ordem vigente presente nas sociedades de classes.
Dessa forma, foi natural que algo de uma vida tão cercada de pressões refletisse na sua obra e isto ocorre em verdade. Observe seu depoimento em um trecho da sua narrativa:

Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro. ¹

Sendo assim, Afonso Henriques de Lima Barreto, segredado e envolvendo, no seu olhar desperto avaliador e sensível a mudanças, ante a janela aberta do Hospício Nacional de Alienados, as montanhas, o mar e o casario sob a manhã nevoenta de janeiro, enquanto medita outro romance que não chegará a concluir, vive nesses dias, tão preso ao personagem-narrador, que se confunde com ele em seus apontamentos sobre o Hospício de Alienados, é um pouco a imagem de seu próprio destino e da sua atitude em face do mundo. Lima Barreto realizava a transposição direta da realidade para a ficção. É possível reconhecer nos seus textos ficcionais e principalmente n’O Diário do Hospício marcas da escrita memorialista. Porem para reconhecermos isto no texto O Diário do Hospício de Barreto é necessário fazermos uma leitura ambígua da narrativa, na leitura ambígua – defeitos passam a ser virtudes e vice-versa.
Escolhi trabalhar com essa temática na obra limana, primeiramente, devido à dificuldade de aceitação desse texto como sendo ficcional, por parte da maioria dos leitores despercebidos, que normalmente ver este texto como confissão do escritor, e depois porque percebi que essa é uma temática pouco alargada no meio acadêmico.


O Diário – realidade ou ficção
O Diário do Hospício pertence ao gênero narrativo e ao subgênero de memórias, por que é uma história situada na figura do autor ou a partir da sua subjetividade. Mesmo sendo um diário, cronologicamente mais próximo dos acontecimentos narrados, é necessário fazer uso da memória para que o texto tome a devida forma.
A arte literária deriva de uma atividade prática do homem de criar outras realidades por meio de palavras. A criação literária é coisa diferente da realidade, mas também significa aparentemente o contrário, ou seja, que a realidade é o material da criação literária. Sendo assim, o escritor parte da sua percepção de realidade para chegar à ficção. Essa percepção pode ocorrer de forma direta e, ou indireta. A direta é quando o escritor observa o mundo, os outros homens, as idéias, concepções, produtos humanos ou observa a sua própria natureza. A forma indireta quando o escritor cria sua obra a partir de outra obra ou toma conhecimento dos fatos por meio da informação de terceiros.
Basicamente foi isso o que ocorreu com Lima Barreto ao compor a sua obra O Diário do Hospício, ele partiu do real para a ficção, e a situação real que ele tinha na percepção direta foi suprida na indireta pela sua imaginação. A imaginação é então um dos três processos principais para a apreensão da realidade. Por ser criado a partir de processos de percepção da realidade, O Diário do Hospício será sempre uma obra imaginada, assumindo sempre uma nova forma, ou seja, a forma ficcional. Observe que Lima em sua narrativa aponta outras obras literárias que correspondia à situação narrada naquele momento:

Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria. ²

O romance, dentre as obras literárias é a que melhor tenciona a relação realidade e ficção. A personagem e o narrador são os mediadores da representação da realidade; são eles, após trabalho do autor, que vão dar ao leitor um relato completo e autêntico da experiência humana. O comportamento deles autentica a verdade proposta pelo enredo.
E nada seduz mais o leitor que o romance de memórias. Primeiro pela narrativa em primeira pessoa, o que confere a experiência relatada ao próprio narrador, funciona como o “eu” das memórias autenticas. O narrador de memórias parte de um ponto determinado e a partir dele evoca a totalidade da sua vida passada. Em alguns casos, para entender o próprio passado, em outros, para explicar a si mesmo o momento presente. Ou seja, o eu que narra não é mais o eu de quem se fala. Provavelmente por isso o autor d’O Diário do Hospício deve ter preferido escolher este tipo de composição textual (romance de memórias).


Projeto ficcional ou realidade em foco.
O romance O cemitério dos vivos parte das anotações realizadas por Lima Barreto durante a sua segunda estada no Hospício Nacional de Alienados, no período de 24 de dezembro de 1919 a 04 de fevereiro de 1920. É o próprio autor, ainda interno do hospício, que dá notícia do seu novo plano de trabalho ao repórter do jornal A Folha: “Tenho coligido observações interessantíssimas para escrever um livro sobre a vida interna nos hospitais de loucos. Leia O cemitério dos vivos. Nessas páginas contarei, com fartura de pormenores, as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro destas paredes inexpugnáveis”. Essa entrevista está relatada no romance.
Quando questionado pelo repórter se já possuía uma data para o lançamento do romance, Lima Barreto, responde: “Não sei. Agora só falta escrever, meter em formas as observações aqui reunidas. Esse trabalho pretendo começar logo que saia daqui, porque aqui não tenho as comodidades que são de se desejar para a feitura de uma obra dessa natureza”.
Então você percebe que embora o texto parta da realidade de seu contexto vivido, Lima Barreto pretende criar sim, um projeto ficcional, pois, ele apresenta esta proposta no próprio romance. Não é de fácil compreensão essa mesclagem, a fronteira entre a realidade vivida e o texto ficcional é quase invisível, uma mente despreparada tende a pensar que tudo é uma coisa só, mais não é. O texto na sua integra podemos absolutamente afirmar que trata-se de um projeto ficcional.


A intenção do autor – literalidade ou literariedade?
O romance O cemitério dos vivos integra o volume homônimo que abriga também em suas páginas as seções intituladas o Diário do hospício, o inventário da biblioteca do autor – a Coleção Limana –, documentos referentes às internações de Lima Barreto no Hospício Nacional de Alienados e a entrevista concedida pelo autor para o jornal A Folha. Segundo alguns críticos trata-se de um volume de memórias. No entanto como se percebe pela descrição das partes que o compõem estão ali diferentes tipos de composições textuais: uma entrevista, documentos burocráticos, notas pessoais e o texto ficcional em formato não definitivo. Assim, a afirmação de que se trata de um volume de “memórias” acaba por confundir o leitor, sugerindo a leitura de O cemitério dos vivos como um exercício de autobiografia.
A princípio os dados do Diário do Hospício estavam organizados em cinco seções intituladas: O pavilhão e a pinel; Na Calmeil – Os primeiros dias; Minha bebedeira e minha loucura; Alguns doentes e por fim Guardas e enfermeiros.
Ao Diário do hospício são acrescidos cinco capítulos: o VI, em que o narrador trata de outros doentes, o VII em que se percebe maior rigor na narrativa e traços ficcionais como, por exemplo, referências à mulher e ao filho; no VIII descreve a biblioteca, o IX é a reescritura do capítulo anterior e, por fim, o capítulo X que são as notas realizadas no hospício.
Lima Barreto observava e anotava o comportamento dos internos, guardas, enfermeiros, e médicos assim como, do ambiente do hospício, das seções a que foi sendo transferido e das leituras que fazia na biblioteca da instituição. Com seu olhar atento procurava avaliar o que se passava. Escrever para ele, naquele momento, era uma maneira de escapar do silêncio, a escrita simulando a vida, ou uma prática destinada a exercitar a palavra. Essas anotações foram como que uma condição de salvação, de manter a lucidez e não perder a perspectiva crítica.
Os capítulos I ao IX formam um texto à parte dentro da narrativa que se convencionou chamar de Diário do hospício. O material que o compõe desperta especulações, pois não atende as características básicas de um texto que se quer diário: não respeita o calendário e está todo ele organizado em capítulos, em que se desenvolvem as opiniões do narrador em registros de fôlego a respeito da sua entrada no hospício, internos, considerações sobre a loucura. Fatos que contrariam o princípio da fragmentação.
Poder-se-ia supor, então, que se trata de uma autobiografia puramente realista, mas não é possível estabelecer um pacto de leitura com o narrador, pois não há uma identificação dessa voz narrativa. Mas a principio em nenhum momento o narrador se identifica como Afonso Henriques de Lima Barreto, como fez em outra obra sua chamada de Diário Íntimo, onde se pode ler:

Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro escreverei a História da escravidão negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade. ³

Além de não se identificar como Afonso Henriques de Lima Barreto, o narrador do Diário do Hospício altera seu nome. A princípio é o Doutor L, quando conta a seguinte história:

Uma noite, às últimas horas, muito bêbado, pedia V. que me levasse ao bonde, que passava na Rua Sete de Setembro. Esperei no poste, em frente ao canil, o veículo e, de repente, focinhei no chão. V., que já morreu e era muito mais forte do que eu, levantou-me, equilibrou-me e pôs-me de pé. De repente, veio uma rapariga preta, surgida não sei de onde, que perguntou a V. (foi ele que me contou): - A patroa manda perguntar o que tem o doutor L.? V. respondeu: - O doutor L. está um pouco incomodado, devido a ter se excedido um pouco. Não é nada. º

E num segundo momento é Tito Flamínio, personagem da primeira versão de O cemitério dos vivos: “Estava deitado no dormitório que me tinham marcado e ele chegou [o guarda] à porta e perguntou: - Quem é aí Tito Flamínio? – Sou eu, apressei-me”.
Outro detalhe é que o narrador relata que a mãe está em casa. A mãe de Lima Barreto, dona Amália Augusta Barreto, morreu em dezembro de 1887, quando ele tinha seis anos de idade. Menciona um filho doente, embora o autor não tivesse filhos e não haja registro de qualquer tipo de união com uma mulher: são apenas personagens ficcionais citadas no corpo do suposto diário, como transcrito abaixo:

Aborrece-me este hospício; eu sou bem tratado, mas me falta ar, luz, liberdade. Não tenho meus livros a mãos; entretanto, minha casa, o delírio de minha mãe... Oh! Meu Deus! Tanto faz, lá ou aqui... Sairei desta catacumba, mas irei para a sala mortuária que é a minha casa.
Meu filho ainda não delira; mas a toda hora espero que tenha o primeiro ataque. (....) Minha mulher faz-me falta, e nestas horas eu tenho remorsos como se a tivesse feito morrer. Logo, porém, como vem de mim ou de fora de mim uma voz que me diz: é mentira.


Todos esses detalhes levam a crer que se trata de um texto ficcional, que procura atender as exigências estéticas de Lima Barreto: de autenticidade, de comoção do leitor, de diálogo, que seriam favorecidas pela narrativa em primeira pessoa. A narrativa centrada no sofrimento humano seria um meio de estreitar as diferenças entre os homens. N’O Diário do hospício, que pela estrutura deveria ser chamado de Memórias do hospício, Lima Barreto, volta a valorizar o testemunho, a narrativa introspectiva para trazer ao leitor a experiência da solidão.
O texto do diário desperta a atenção ao primeiro contato. Inicialmente pelo título e num segundo, o mais atrativo ao leitor, pelo conteúdo: o cotidiano no hospício, no melhor estilo “baseado em fatos reais”. O narrador facilmente envolve o leitor, devido às situações narradas e à maneira como o faz: usa de linguagem simples e adequada ao tom confessional do texto.
Possivelmente esse tom verossímil que se apresenta na narrativa limana é um recurso a mais para atrair a atenção dos leitores, que, provavelmente durante o inicio do século XX interessavam-se por narrativas de diários e principalmente tratando-se de um assunto tão polêmico que era um tabu na época, a loucura.

4 de janeiro. Estou no hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado. Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia. Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra só capaz de cobrir a nudez, e nem chinelos e tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável.

Um leitor desatento, provavelmente ficaria confuso ao ler um texto com essa riqueza de gêneros interligados, e talvez até possa pensar que esse texto não tem nada de ficcional.
Outra característica desse narrador é a rapidez com que vai contando os fatos: no primeiro capítulo informa ao seu leitor quando entrou no hospício, como é o tratamento recebido, que esteve internado antes, que não se acredita louco, mas que devido ao álcool e apreensões domésticas e financeiras viera para ali. Faz comentários sobre os médicos, guardas e enfermeiros e sobre a transferência para outra seção. E por fim promete que vai contar a “tragédia manicomial em separado”, mas que no momento vai suspender a narrativa porque se cansa. Cria, entretanto, o gancho para manter o leitor esperando por mais informações:

Paro aqui, pois me canso; mas não posso deixar de consignar a singular mania que tem os doidos, principalmente os de baixa extração, de andarem nus. Na Pinel [seção do hospício em que estava internado], dez por cento assim viviam, num pátio que era uma bolgia do inferno. Por que será?

Indiscutivelmente depois da analise desse fragmento não resta dúvidas quanto à composição literária desse texto, ele apresenta de forma quase imperceptível a maneira como segurar um leitor ao longo de suas narrações.
Através desse recurso utilizado pelo escrito, percebemos que seu objetivo ia mais além do que escrever um simples diário intimo ou querer narrar simples fatos da sua vida no hospício, percebemos que ele tinha uma intenção colossal com a escritura desse diário. Talvez a intenção fosse como nós sabemos, escrever um romance que perpetuasse além dos seus dias. E foi isso que ele fez. Ele procurou através dos fatos vividos por ele em seu cárcere privado, ou, aliais coletivo, criar um texto ficcional que englobasse a sua vida por um todo.


A loucura – motivação para a escrita.
N’O Diário do hospício, a loucura é motivação para um capítulo e passa a ser analisada sob a ótica científica; é mistério e precisa ser pesquisada, no entanto logo depois deixa de ser ciência e passa a ser mistério:

Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. (...) Há uma nomenclatura, uma terminologia, segundo este, segundo aquele; há descrições pacientes de tais casos, revelando pacientes observações, mas uma explicação da loucura não há.
Vista assim de longe, a noção do horror que se tem da loucura, não parte da verdadeira causa. O que todos julgam, é que a cousa pior no manicômio é o ruído, são os desatinos dos loucos, o seu delirar em voz alta. É um engano. Perto do louco, quem os observa bem, cuidadosamente, e une cada observação à outra, as associa num quadro geral, o horror misterioso
da loucura é o silêncio, são as atitudes, as manias mudas dos doidos.

O processo criativo é um exercício constante de acúmulo e renúncia de dados, idéias, palavras, de tempo. No caso do processo de criação de O Diário do Hospício não foi diferente. Por meio da analise feita verificou-se que Lima Barreto, pelo que se deduz dos manuscritos e anotações dele no hospício, desenvolvia as notas à medida que coletava as “observações interessantíssimas” do hospício. Podemos comprova isto quando lemos no capítulo V o seguinte fragmento:

Ontem matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas: “Suicidou-se no pavilhão um doente. O dia está lindo. Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia Tão belo como o de hoje”. Não me animo a dizer: venceste, Galileu; mas, ao morrer, quero com um sol belo, de um belo dia de verão!

Isto faz pensar que o texto do diário foi desenvolvido ainda dentro do hospício, e num primeiro momento até atendeu as expectativas do escritor, mas não a contento de modo que era necessário empreender o romance.
De acordo com o contexto da narrativa de Lima Barreto, o romance foi produzido praticamente após a alta da instituição. Provavelmente 7 de fevereiro de 1920, cinco dias após a saída do hospício. Lima Barreto, em sua busca de formas literárias que melhor pudessem soldar e ligar a humanidade em uma maior reflexão, não deveria estar satisfeito com a narrativa do diário, mais objetivo, e pouco envolvente aos olhos do leitor, a não ser para satisfazer a curiosidade daqueles que gostariam de vivenciar por meio da leitura a experiência interna do hospício. Era necessário erguer o texto a um estágio de maior tensão emocional para que atendesse à sua estética militante, que era de produzir uma literatura de reflexão da realidade, opção que começou a desenvolver em alguns capítulos do diário, mas de modo ameno e insuficiente frente às suas expectativas. Afinal a experiência de internamento fora singular e poderia ir além do desenvolvimento de “observações interessantíssimas” sobre a vida dentro do hospício. Então foi a partir da temática da loucura e com a experiência vivida que intencionalmente começou aflorar a literariedade do Diário, na sua forma propriamente dita.


As personagens – o universo da ficção limana
A arte literária de fato seria uma atividade individual, porém que após a reelaboração deixava de pertencer ao artista e passaria a fazer parte do mundo com o objetivo de diminuir diferenças. Observa-se nessa proposta do autor umas das qualidades do texto ficcional: atingir temas universais quando trata de problemas subjetivos das personagens.
Para Lima Barreto, a arte estava longe de ser apenas entretenimento, deveria promover reflexões sobre a condição humana, e, a partir delas estabelecer união entre os homens, possibilitar a quem lesse seus escritos. Ele procurava evidenciar que uma narrativa centrada no sujeito, e mais precisamente no sofrimento, poderia diminuir o distanciamento e a diferença social.
Lima Barreto estava muito ciente do que fazia, não era um escritor relapso ou em busca de reconhecimento imediato. Sabia do risco que envolvia suas opções, mas optou por partir de um olhar de quem está de fora, à margem, e não é possível negar que é um olhar privilegiado, de quem transitava por sociedades distintas e não se sentia parte de nenhuma delas.
Na obra O cemitério dos vivos, a preocupação com o desenvolvimento das personagens torna-se claro, pois das noventa e sete notas que compõem o capítulo X do diário cerca de dois terços tratam dos tipos humanos que dividem o espaço com o narrador, em sua segunda estada no hospício.
No Diário do Hospício, do capítulo I ao IX foram identificados setenta e um personagens. No capítulo X, da mesma obra, foram estabelecidas as identidades de cinqüenta e nove indivíduos, entre internos, funcionários administrativos, amigos e familiares.
Gostaria de salientar que a descrição das personagens na obra limana, serve, pura e tão somente para indicar o grau de ficcionalidade do texto, embora sejam seres reais em qualquer sociedade e em qualquer época, o modo como o escritor retrata cada cena, cada situação vivida, nos dá a entender que existe uma fronteira que ele ultrapassa entre a realidade e a ficcionalidade. Observe atentamente a esse detalha no trecho abaixo:

Meu vizinho de dormitório é um rapaz cuja loucura reagiu sobre o seu aparelho vocal a ponto dele mal falar e com esforço. Olha-me estupidamente, e com um olhar parado e de um único brilho, e tem a mania de incapacidade de ingerir qualquer alimento. Tudo se tem experimentado: leite, frutas, até um irrigador; mas é em vão. Ele não ingere nada e, se ingere à força, logo vomita, debilita-se e dá em suar as catadupas.
Esperando a sua morte próxima, a família levou-o para casa. Vai mudar de cemitério — coitado! Para esse, não houve um intervalo entre os dois.


As características de personalidade dos personagens, assim como as descrições das seções do hospício servem ao processo de criação literária, porém, o que ocorre é que as características de personalidade originais são acrescidas de outras que vêm decorrentes das leituras de Lima Barreto ou que são decorrentes da sua imaginação. No entanto, qualquer que seja a opção, o autor tinha em mente ligar a humanidade em uma maior e para que pudesse atender a esse objetivo, manteve-se como um equilibrista entre a realidade e a ficção.


Considerações finais
Lima Barreto estava preso à vida presente, aos homens presentes; eram eles a sua matéria para falar a nós os homens futuros. Fez de suas páginas de ficção memória do seu tempo presente. Tal atitude, taxada de personalismo, despertou na crítica um olhar ambíguo sobre seus escritos, pois ora eram defeitos ora virtude. Se eram defeito ou virtude a Lima Barreto pouco importava, pois a literatura para ele nunca fora entretenimento silencioso.
Fica claro, portanto, que o registro memorialista, refundido ficcionalmente, longe de ser traço de espontaneidade ou imperícia, constitui-se em opção estética manifesta, em busca de efeitos expressivos particulares bem como de favorecer a comunicação entre os leitores.
Para a sua estética engajada, militante, os gêneros pouco interessavam, pois como ele mesmo escreveu, queria comunicar e estreitar o relacionamento entre os homens. Dessa forma percebemos a grandiosidade de sua obra, que ainda hoje encanta muitos leitores pela verossimilhança e fusão biográfico-literária apresentada e a metalinguagem em explicar sobre a sua estética dentro da sua obra.






























Referências Bibliográficas

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 38 ed. São Paulo: Cultrix,
2001.

BOSI, Alfredo. O romance social: Lima Barreto. In: História concisa da literatura
brasileira. 36. ed. São Paulo: Cultrix, 1999. p. 316-324.

LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.

EPISÓDIO DE INÊS DE CASTRO NA CRÔNICA LOPEANA E NA EPOPÉIA CAMONIANA


Cláudio H. de S. Pires – UESB/JEQUIÉ**

Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram:[...]
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(canto I, est. 3, vv. 1-8).


RESUMO

Neste trabalho apresentarei um estudo comparativo sobre o episodio de Inês de Castro na obra de Fernão Lopes, na qual, predominou o estilo literário Humanista/Renascentista e na epopéia Camoniana Os lusíadas em que predominou o Classicismo/Renascentista. Dentre as obras destes autores que possibilitam semelhante análise me detive na observação dos estilos dos autores, o período literário na qual se inseriram a construção da personagem Inês de Castro em ambas as obras, a contextualização histórica da vida dos autores e da construção da crônica lopeana e da epopéia camoniana e a influencia da crônica lopeana na epopéia Os lusíadas. Fiz a escolha destes tópicos por considerá-los de significativa expressão e autenticidade. Partindo do pressuposto de que a literatura retrata os problemas sócio-políticos e os conflitos amorosos, procurei observar a caracterização dos sujeitos da época como uma referência para identificar traços da concepção de arte e de conduta dos escritores Fernão Lopes e Luís de Camões, mapeando a transposição destes para as personagens que cria ou rememora. Embora tais obras tenham sido escritas em diferentes épocas, com características peculiares do seu tempo-espaço, busquei traçar um paralelo com os aspectos que se assemelham entre ambas as obras, como também, estabelecer comparações acerca de possíveis visões que venham se reproduzindo até a sociedade vigente.

Palavras-chave: Literatura Portuguesa, Inês de Castro, Fernão Lopes e Luís de Camões.


1. O estilo dos autores.

Fernão Lopes

Fernão Lopes distinguiu-se de seus contemporâneos pela imparcialidade e pelo trabalho de pesquisa. Outros cronistas idealizavam os feitos da nobreza que os patrocinava; baseava-se na tradição oral, que, colhida em fontes diferentes, resultava num relato muitas vezes incongruente, quando não fantasioso.
Lopes aproximava-se mais do modelo de historiografia moderna, como se pode ver pelas seguintes qualidades de suas crônicas: foi pioneiro na investigação e pesquisa de fatos e documentos; praticou um relato objetivo e sem partidarismo; valorizou as massas populares, considerando-as co-agentes da história; além dos fatos políticos, soube entrever a importância dos fatores econômicos para a constituição de eventos históricos. Seu espírito crítico, seu conhecimento de autores clássicos (como Aristóteles e Cícero, por exemplo) e sua visão da importância homem como agente da história revelam a filiação ao espírito do Humanismo, que ele introduziu em Portugal.
Suas crônicas apresentam qualidades superiores. Como estilista, soube captar o caráter épico de seus temas e expressa-lo de forma vibrante e arrebatadora, prendendo a atenção do leitor num suspense continuo; como narrador soube dar expressão ao conteúdo emocional de sua matéria. Sua linguagem possui um poder plástico extraordinário, que permite a visualização palpitante de assembléias e festas populares; além da plasticidade, é também dramática, como se pode ver nos diálogos cheios de tensão, que Fernão Lopes empresta as figuras históricas, e nas inúmeras cenas tocantes (como as das agruras do povo por ocasião do cerco de Lisboa pelas forças de Castela), em que se pode avaliar o talento teatral do grande cronista.
Essas e outras qualidades, mais a antiguidade dos textos de Fernão Lopes levaram a crítica e a historiografia literária a chamá-lo “pai da prosa portuguesa”.
Não existem dados biográficos conclusivos a respeito de Fernão Lopes, teria nascido entre 1380-90 na cidade de Lisboa numa família de origem humilde. Por conseguinte, durante o amadurecimento do cronista, faziam-se recentes na memória dos portugueses os acontecimentos e personagens da chamada Revolução de Avis (1382-5). Este movimento foi, na verdade, um golpe sucessório auxiliado pela população camponesa, comerciantes, alguns membros da nobreza e ordens religiosas, principalmente os franciscanos, no qual ascendeu ao trono D. João, Mestre de Avis. Dessa maneira, Fernão Lopes testemunhou os eventos relatados na sua última obra, elaborada acerca de 1443, a Crônica de D. João I, e pôde consultar os protagonistas envolvidos na resistência contra Castela e na paz firmada no ano de 1411. O registro mais antigo da vida de Fernão Lopes é um documento de 1418 que atesta a função de Guarda-mor da Torre do Tombo, e escrivão de D. Duarte. Em 1419, como também escrivão de D. João I, começa, provavelmente, a redigir a Crônica dos sete primeiros reis de Portugal. Algum tempo depois, 1422, aparece intitulado escrivão da puridade do infante D. Fernando, mas somente na data de 1434, com o reinado de D. Duarte, Fernão Lopes recebe a incumbência oficial de colocar os feitos portugueses na forma de crônicas, que seria confirmada pela regência de D. Pedro e no posterior governo de Afonso V. Porém, cinco anos após o conflito de Alfarrobeira (1454), foi legalmente aposentado de todas as funções devido à idade avançada, já que desde 1451-2, Gomes Eanes Zurara assumira a composição dos textos e a guarda das escrituras.

Luís de Camões

O maior poeta da língua portuguesa, aquele que lhe deu a sua feição mais elevada, tem biografia obscura. Vários são os mistérios que pontuam a vida agitada e trágica de Camões.
Filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, Camões descendia de família fidalga empobrecida. Alguns biógrafos pressupõem que Camões teria freqüentado a Universidade de Coimbra, por volta de 1540; outros afirmam que teria sido educado sob os cuidados de um tio clérigo, mas nada se sabe ao certo sobre isso. Seja como for, o poeta adquiriu uma formidável cultura humanística, como atestam seus versos, impregnados de erudição clássica.
Em vida Camões teve publicados quatro poemas líricos e sua epopéia clássica lusitana. Quinze anos após o falecimento do poeta, com base em cancioneiros manuscritos de procedência variada, foi publicada a primeira coletânea lírica atribuída a Camões, com o titulo Rimas de Luis de Camões. O acervo lírico camoniano de que dispomos é suficiente para consagrar Camões como um dos mais altos poetas líricos do Ocidente.
Camões é também autor de três peças de teatro, publicadas em 1587: Auto do Filodemo, El-Rei Seleuco e Anfitriões. As duas primeiras se aproximam da estrutura do teatro vicentino, enquanto a última segue o molde da comédia latina de Plauto. Mas não é no teatro que Camões se distingue como artista; o que importa conhecer e estudar é sua epopéia e sua lírica.
Para transmitir epicidade à sua mensagem, Luís de Camões recorre assiduamente à comparação baseado na Literatura da Antiguidade. Tal sucede, por exemplo, no episódio de Inês de Castro, quando o Poeta refere à orfandade dos filhos de Inês e compara a triste sorte desta mulher indefesa com o caso de Policena, que foi sacrificada por Neoptólemo por imposição de seu pai, Aquiles.
Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena
(canto III, est. 131 vv. 1-3).

Ainda neste episódio surgem outras comparações igualmente elucidativas da posição de Luís de Camões face às ocorrências narradas. É o caso da história dos irmãos Atreu e Tiestes, que o Poeta utilizou para condenar a indignidade do ato cometido contra uma frágil donzela. Fingindo fazer as pazes com o irmão, Atreu ofereceu a Tiestes um banquete em que lhe deu a comer os próprios filhos como vingança da ligação ilícita entre o seu irmão e a sua mulher. O crime foi tão execrável que o sol se recusou a testemunhá-lo, afastando os seus raios.
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
(canto III, est. 133 vv. 1-4).

O Narrador também faz alusão aos irmãos que fundaram a cidade de Roma.
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cós irmãos que Roma edificaram:
(canto III, est. 126 vv. 5-8).

Luís de Camões faz o paralelo entre este caso e o martírio de Inês, considerando-os semelhantes a nível de atrocidades cometidas.
Neste episódio, apesar de se basear na verdade histórica, Luís de Camões também recorre à mitificação dos acontecimentos para sensibilizar o leitor. Ao desfigurar a realidade, o Poeta embeleza magnificamente o seu relato, apresentando, com um misto de veracidade e de lenda, uma das mais famosas e impressionantes histórias de Amor.
Considerando que a análise apresentada é bastante resumida, diante da importância de Os Lusíadas e o seu autor para a história da Literatura, julgamos ser válido ressaltar que: Camões, homem de sólida formação cultural, atento aos valores estéticos do classicismo literário e com ideais humanistas, de fato, soube interpretar o sentimento de orgulho nacional, resultante da consciência de que durante algum tempo, Portugal foi capaz de se destacar das demais nações européias.

2. O período literário no qual se inserem Fernão Lopes e Luiz de Camões.

Fernão Lopes

Humanismo é o nome de um movimento intelectual, uma doutrina filosófica e uma postura artística que representam a transição entre a cultura européia medieval e a do Renascimento. Teve inicio na Itália, entre o fim do século XIII e o inicio do século XIV, no outono da Idade Média.
Os Humanistas trouxeram de novo uma atitude de liberdade intelectual de que a Escolástica¹ não dispunha. Essa independência levou a conquistas que abalaram o teocentrismo. Entre elas, uma das mais expressivas é a da valorização do homem e da natureza.
A ideologia do teocentrismo dominou a cultura da Europa medieval. Como o nome diz, Deus é o centro. Tudo deve estar voltado para ele. A matéria deve ser desprezada e reprimida, pois suas necessidades grosseiras dificultam a ligação com o mundo do espírito, que é o de Deus. Como o reino da matéria é a natureza, é ela que deve ser negada. Assim, a doutrina teocêntrica postula que o homem deve lutar contra a natureza corpórea degradante para cuidar somente da vida espiritual, sob a orientação da igreja.
Os humanistas adotaram outra visão. Aprenderam a ver a natureza como testemunho da grandeza e bondade de Deus, como digna de ser valorizada e estudada racionalmente. Aprenderam também a reconhecer no homem qualidades superiores: a razão, a iniciativa, a capacidade de ação sobre a natureza e a história, o poder de influencia na construção de seu próprio destino. Esta visão de mundo otimista, assimilada de grandes clássicos da Antiguidade greco-romana, foi o germe do antropocentrismo, que viria a caracterizar o Renascimento.
A mentalidade humanista impregnou a arte e a literatura de novos valores e formas de expressão, preparando o terreno para a virada estética revolucionária do Classicismo renascentista.
O marco inicial do humanismo português se deu com a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de guarda-mor da Torre do Tombo, ou sua promoção à cronista-mor do reino, em 1434.

Luiz de Camões

Classicismo é o nome da escola artística do Renascimento. Suas idéias e realizações são, principalmente, frutos da assimilação da cultura greco-romana, decorrente dos estudos empreendidos pelo Humanismo. Iniciado na Itália, no final do século XV, o Classicismo difundiu-se pela Europa, ao longo do século XVI.
Renascimento é o nome que se dá às transformações culturais revolucionarias de um época trepidante, a da passagem da Idade Média para a Idade Moderna.
Após sete séculos de duração, o sistema político, econômico e social do feudalismo² entrou em colapso. O poder descentralizado do feudalismo deu lugar a um poder concentrado nas mãos dos reis. Com a queda do feudalismo, consequentemente a sociedade passou de uma economia agrária de subsistência para se produzir pensando em excedentes, para a comercialização no mercado que acabara de surgir com o renascimento das cidades e volta das moedas, com isso a economia se tornou dinâmica com as grandes navegações ultra-marinas que buscava mercadorias no Oriente.
O sistema de estamentos que estratificava rigidamente a sociedade feudal* começou a desagregar-se e a ser substituído por uma estrutura flexível e móvel, a da sociedade de classes, que viria a se realizar plenamente após a Revolução Francesa.
A essas transformações históricas devem ser somadas aquelas que abalaram a Igreja de Roma. Em 1517, Martinho Lutero entrou em atrito com a Igreja, que desencadeou a Reforma, e consequentemente a contra-reforma. Para aumentar a crise da Igreja, o renascimento da cultura clássica e o surgimento da ciência moderna foram golpes fatais para a filosofia escolástica e o teocentrismo.
Segundo a escolástica, o papel da filosofia não seria o de pesquisa da verdade, uma vez que esta teria sido revelada por Deus e estaria contida no livro sagrado; a filosofia caberia a tarefa de comentar a revelação divina, para esclarecê-la.
O Renascimento, ao contrário, estimulou a curiosidade intelectual, abrindo caminho para investigação conflitantes com a filosofia escolástica, uma vês que adotava a liberdade de pensamento como critério, e se dispunha a examinar as questões se curva-se perante os dogmas da igreja.
Influenciados pelo pensamento do Humanismo, estudiosos renascentistas voltaram suas atenções para a natureza. A orientação de suas investigações era dada pela observância dos fenômenos físicos e a analise racional dos fatos observados. Os fundadores da ciência moderna valorizavam o empirismo, submetendo à teoria racional a prova experimental, isto é, o conhecimento teórico deve ser confrontado com a experiência.
Assim como a ciência, a arte do Renascimento voltou-se decididamente para a natureza. Entendia-se que a obra de arte deveria imitar a natureza. Os renascentistas encontraram em Aristóteles esse conceito, que definia a arte como mimese (imitação da natureza, realidade e da vida).
O Classicismo do Renascimento é o culto e a prática dos valores artísticos presentes nos autores da antiguidade greco-romana, considerados de classe (de alta qualidade), daí o nome do movimento.
Os Clássicos do Renascimento estudaram e imitaram os clássicos da Antiguidade, voltando a pratica de formas e gêneros literários antigos e assimilaram também a idéia grega de que arte é a expressão de Beleza.
Serenidade, sobriedade e racionalismo são três características do Classicismo, também decorrentes da sabedoria grega, que recomendava: nada em excesso. A razão deve predominar sobre a emoção.
A forma clássica aspira ao equilíbrio e a harmonia da composição; está atenta ao senso de proporção; trabalha a linguagem com clareza e concisão; enfim, busca o rigor e a perfeição formal, obedecendo aos tratados de arte poética que consagravam modelos e regras a seguir.
O ideal de perfeição indica mais uma importante característica clássica: o universalismo. A palavra deriva do universo, que significa totalidade. O universalismo na arte se observa quando o geral supera o particular e as partes estão subordinadas ao todo.
Na literatura clássica, o universalismo se confunde com o idealismo, de inspiração platônica. Segundo Platão, as coisas do mundo sensível são efêmeras imagens imperfeitas das formas ideais, perfeitas, que vivem eternamente num mundo superior ao nosso, o mundo inteligível. Assim, o artista clássico valoriza os conceitos gerais, as idéias, que comumente se expressam em palavras iniciadas por letras maiúsculas sem necessidade gramatical (beleza, amor, real e etc.).
O Renascimento e o Classicismo revitalizaram a herança greco-romana, combinando com o legado do cristianismo³, de maneira a dar a este novos significados e perspectivas. Na pratica literária, a mescla de motivos pagãos e motivos cristãos é chamada fusionismo.
É certo afirmar que as tendências literárias se conflitam – não podemos determinar períodos exatos para cada obra da literatura – devido não se saber ao certo quando termina ou começa um processo histórico, pois um novo contexto histórico-social funciona como um sinal de novidades, sem, entretanto determinar a morte do padrão velho da estética literária. Mas vale ressaltar que, em cada momento histórico, há uma predominância de um padrão a ser seguido, caracterizado pelas transformações sócio-econômicas e culturais de cada época.
No Renascimento essas transformações influenciaram drasticamente no modo do homem compreender o mundo, que até esse momento limitava-se à extensão do feudo. O período das grandes navegações, aliado ao surgimento da imprensa ampliou os limites físicos do mundo e também os horizontes intelectuais do homem. Como conseqüência, o Teocentrismo começa a perder, gradativamente, espaço para o Antropocentrismo, que atinge seu ápice no Renascimento.
Como não poderia deixar de ser, a arte produzida nesse período também passa por transformações consideráveis, pois a vida religiosa, tema dos artistas até aquele momento, é substituída pelas emoções e pelo comportamento humano.
Nesse momento, as mudanças caracterizam-se com a revalorização da Antigüidade greco-romana e a conseqüente imitação de sua literatura, aparecem novamente os poemas épicos, que tomam como modelo as grandes epopéias dos gregos e romanos.

3. Construção da personagem Inês: características físicas e psicológicas.

D. Inês de Castro era familiar de poderosos nobres que ameaçavam a independência de Portugal. O seu relacionamento amoroso com o príncipe herdeiro fazia perigar o reino, tanto mais que Inês e Pedro tinham filhos que poderiam ameaçar a subida ao trono do legítimo herdeiro, D. Fernando, filho de D. Constança. Os conselheiros do rei vão insistir na necessidade de sacrificar D. Inês, exigindo a sua morte com base em argumentos políticos. É impressionante a súplica de D. Inês perante D. Afonso IV, tentando demovê-lo dos seus mortíferos intuitos, e, apresentando como principal argumento os seus filhos, netos do rei, que ficariam órfãos e desamparados:


A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
(canto III, est. 127, vv. 5-8).


Luís de Camões impregnou este seu episódio de um maravilhoso lirismo, personificando a própria natureza, que se compadece da morte de uma donzela tão bela.
Na época Inês era considerada uma mulher manipuladora que utilizava o seu poder junto do príncipe, em benefício de interesses alheios à coroa portuguesa. Só posteriormente, quando desapareceram todas as pessoas que poderiam testemunhar o seu caráter, é que se procedeu à transformação da sua imagem.
Embora fisicamente debilitada e sem forças, Inês de Castro, tinha um caráter forte e impregnante, o que a fez lutar pela sua vida até o último suspiro. Suas palavras eram mais fortes que as suas atitudes físicas, embora estas palavras não a fez conseguir livrar-se da ira do rei e seus súditos.


4. A contextualização histórica da crônica e da epopéia camoniana.

Fernão Lopes (crônica)

Fernão Lopes viveu num momento de intensa crise política. Encerrada a tentativa de invasão castelhana na Revolução de Avis, nenhum grupo detinha autoridade incontestável, enquanto a aristocracia entrava num processo de rearranjo hierárquico, uma vez que parte da antiga nobreza perdera prestígio ao apoiar a invasão estrangeira, o chamado terceiro Estado reunia-se nos pequenos conselhos rurais, urbanos (especialmente Lisboa e Porto), organizações de comércio e ofício. Assim, surgiu um sistema social disperso, cujas constantes lutas locais limitavam uma nova ação que envolvesse todo o território. Diante de tais condições Lopes fora designado para croniciar os feitos da nova dinastia, entretanto, somente o repertório formal e cronológico sob os quais, até então, se estabelecia o gênero crônica, não poderiam dimensionar o processo de abalo das tradicionais bases de poder desarticuladas no movimento ‘revolucionário’, pois, a revolta assentando-se no questionamento da ordem política colocava em suspeição as formas discursivas que constituíam a estrutura de poder senhorial. Lopes tentou racionalizar uma época instável, abstendo-se o quanto pôde do texto laudatório na busca pela isenção histórica, passível de uma verdade capaz de recontar com “çertidom” os acontecimentos. O cronista, apropriando-se, segundo Luís de Souza Rebelo, de um legado discursivo e cultural existente, envolveu-o numa nova trama, explicativa de um outro contexto que deslocava seu sentido original. Fernão Lopes trabalhou nesta margem “de integração do que é novo dentro das velhas estruturas mentais”.
A percepção do caráter problemático do estabelecimento do passado é o ponto de partida motivador da reflexão de Fernão Lopes. Essa percepção é paralela ao enfraquecimento das formas tradicionais de autoridade social e intelectual produzidas pelos acontecimentos da Revolução de Avis. Na ausência de um centro legitimador do discurso, o que aparece é a pluralidade de versões sobre os eventos. No enfrentamento dessa crise de fundamentação, Lopes, enquanto autor, assume a posição de um observador de segunda ordem. Toma distâncias das diferentes histórias disponíveis, tornando-as simples versões ou partes da verdade, requerendo a ação de um sujeito metodologicamente aparatado para recompor a unidade e coerência que devem caracterizar a “nua verdade”. A verdade que no vivido dos fatos, na ação histórica, parece ter sido perdida ou incapaz de ser percebida integralmente pelos próprios agentes.
Esse processo de subjetivação, ou seja, de criação de um autor/sujeito/competência capaz de produzir verdade resolve a percepção da multiplicidade dos relatos e, ao mesmo tempo, serve como esfera onde a ‘naturalidade’ do mundo pode ser recuperada enquanto verdade para todos. Ou seja, se o ser português é condição necessária para saber a verdade da ‘revolução’, essa verdade correria o risco de permanecer um conhecimento limitado àqueles que dela pudessem ter uma experiência direta. Ao estabelecer a voz autoral em torno de procedimentos formais previamente definidos, Lopes pode reivindicar novamente um tipo de integridade para um relato realístico, uma verdade sem fronteiras e território, mesmo que assentada na pré-compreensão do caráter sempre condicionado da história humana.

Luís de Camões (epopéia)

Luis de Camões viveu num momento de crise, como soldado participou de combates em Ceuta, na África, perdendo o olho direito. De volta a Portugal, freqüentou a corte.
Em 1552, foi preso por ferir um cortesão do rei, numa briga de rua. No ao seguinte, é solto é parte para Índia, a serviço de D. João III. Lá, participou de várias expedições militares, vivendo anos de pobreza e dificuldades. A benevolência de um vice-rei levou-o a Macau, na China, para exerce o compensador cargo de “provedor dos bens de defuntos e ausentes”. Má administração teria levado o poeta a perder o cargo e regressar prisioneiro para a Índia. O navio que o levava naufragou junto a foz do rio Mecom. Camões salvou-se a nado. Diz a tradição que nesse naufrágio teria parecido Dinamite, a chinesa amada de Camões, imortalizada em seus versos líricos.
Entre 1557 e 1569 esteve em Moçambique, “tão pobre que vivia de amigos” como disse Diogo Couto, que o encontrou na África. Nessa ocasião, Os lusíadas já estavam redigidos. Camões tinha pronto, também, o manuscrito original de um livro de poemas, chamado Parnaso, que lhe foi roubado e desapareceu.
Em 1570, de volta a Portugal, Camões luta para imprimir sua epopéia lusitana. Em 1572, após dois anos de demandas pelo alvará real e a licença da Inquisição, consegue, finalmente, ver publicada sua obra-prima: Os Lusíadas.
O jovem rei D. Sebastião, pelos serviços prestados, concede ao poeta uma modesta pensão, que não foi paga regularmente.
Os últimos anos foram de penúria. Doente e marginalizado, Camões morreu em 1580, sendo enterrado em cova rasa, no convento de Santa Ana, local hoje chamado de Campo de Santana. De fato, jamais se encontrou o tumulo de Camões, mas afirma-se que, anos após o falecimento do poeta, D. Gonçalo Coutinho mandara instalar uma lapide identificando o local. Esse marco se perdeu, com o terremoto que assolou Lisboa, no século XVIII. Hoje, há um tumulo de honra a Camões, situado no mosteiro dos Jerônimos, ao lado do de Vasco da Gama, o herói imortalizado pelo poeta em Os lusíadas.

5. A influência da crônica lopeana na epopéia Os lusíadas.

Para narrar a expedição de Vasco da Gama ao Oriente, datada de finais do séc. XV, Luís de Camões recorreu, sobretudo, à História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda, ao Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro Velho, e à Ásia, de João de Barros. Porém nesta breve analise irei me deter mais especificamente nas inferências que as crônicas de Fernão Lopes obtiveram sobre o poema épico Os lusíadas.
Como já havia dito anteriormente, Camões utilizou alguns episódios das crônicas lopeanas, entre esses, encontra-se o episódio de Inês de Castro, em que o poeta ao transcrever as cenas, fez algumas adaptações, expondo assim, seu ponto de vista a respeito desse fato histórico.
A diferença que fica explicita veementemente nas cenas d’Os lusíadas se comparada a crônica de Fernão Lopes é a questão da presença de filhos de Inês de Castro no poema épico de Camões. Na narração lopeana em nenhum momento ele cita que Inês tinha filhos, mas, quando observamos n’Os lusíadas a cena em que Inês de Castro intercede pelos filhos ao rei D. Afonso IV isto fica bem nítido. Observe estas estrofes d’Os lusíadas de Camões:

E depois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia: [...]

A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

(canto III, est. 125 vv. 5-8/ 127, vv. 5-8).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

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Fale/UFMG, jul.1986/dez.1988. p. 150-156.

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